30 de abril de 2009

Yoga, uma religião moderna?

Se eu fosse questionado sobre se Yoga é uma religião, diria "depende!". No sentido usual do termo "religião", diria que não. Mas também não acho que o sentido usual de "yoga" fala muito sobre Yoga. Porém creio que há sim uma maneira que podemos definir religião e yoga de forma que ambos conceitos caminhem juntos. E, de certa forma, creio que é justamente nesta definição sobreposta que o Yoga parece estar ganhando terreno popular como uma forma de autoconhecimento.

Ao tentarmos encaixar o conceito usual de religião no Yoga, percebemos que não se sobrepõe na parte de ser um fenõmeno humano controlado por uma instituição organizada ou formalizada, não possuir dogmas e axiomas não-verificáveis, liturgias padronizadas e não ter escrituras sagradas únicas. Por outro lado, Yoga trata de aspectos do universo que transcendem a individualidade, a sociedade e as leis humanas.
Estes aspectos podem ser tratados como divinos, sobre Deus, ou mísiticos, que são temas das religiões. E mais, se tratarmos religião como uma forma de nos unirmos com o todo através do conhecimento desta realidade que transcende a experiência humana ordinária, estaremos sim falando do mesmo fenômeno. Dependendo de como definirmos "religião" ou "yoga", eles podem se encontrar ou não. Mesmo que você não goste desta aproximação conceitual, convido-o para uma tomar, para fins deste texto, este conceito de yoga como religião, enquanto uma vida de autoconhecimento.

Para entrarmos na pergunta do título, se Yoga é uma religião moderna, diria que esta pode ser, mesmo que numa visão simplista ou indireta, a idéia que muitos tem desta tradição milenar hoje em dia. Muitos buscam no Yoga somente o bem-estar físico. Mas creio que mesmo muitos destes "malhadores" ou "relaxadores" também sentem uma pitada introspectiva no Yoga, que é diferente de outras práticas de relação com o corpo físico, que eu diria ser um interesse embrionário para o autoconhecimento.

Outra ponto é que estas pessoas que tem uma busca no Yoga mais imediata e densa, juntamente com outras mais espiritualizadas, dentro da nossa cultura urbana atual, provavelmente tem uma boa dose individualista. E, de certa forma, o Yoga tem um apelo bastante individualista: propõe que você pode se resolver com o que já tem dentro de si. Há tradicionalmente um papel fundamental do guru, mas este é um espelho do ser desperto que já temos conosco, que é o ponto que quero enfatizar aqui. Estamos cansados de palavras firmes sobre nós que não podem ter uma realidade em nossa experiência cotidiana.
Queremos ser felizes e compreender nossos recantos interiores, mas precisamos, como parte de uma cultura individualista, de propostas que permitam que nós possamos conhecer estes lugares interiores por uma experiência direta, prática e passível de ser aplicada em uma vida normal, com trabalho, filhos, cidades... Neste sentido, o Yoga cai como uma luva. Além do mais, o Yoga consegue de uma forma muito simples estabelecer uma leitura com o mundo de forma que conseguimos integrar todos os aspectos de nossa vida de forma alinhada com esta busca do ser pleno, desde lavar louça, fazer sexo, até meditar sobre a realidade última da vida.

A minha leitura sobre o fenômeno do Yoga pode parecer exagerada quanto à profundidade que as pessoas de fato percebem no Yoga, mas sinto que, mesmo sem se darem conta, é algo neste sentido. Acho que ainda teremos muitas abordagens do Yoga de forma mais superficial, valorizando certas técnicas como exercícios com o corpo físico de forma exagerada ou mesmo trabalhos que se focam numa cultura de comportamento para a comunidade yogue, como se isto fosse um fim em si mesmo - aqui incluem-se os estímulos à sociedade de consumo yogue. Porém, por mais que estas leituras possam prestar um contra-serviço, são também leituras válidas desde a profundidade que cada um tem do Yoga e um reflexo natural da cultura fora do Yoga. Até o ponto onde percebemos que algumas práticas usuais de nossa sociedade de consumo não são compatíveis com o avanço da prática de Yoga e deveremos tomar algumas decisões sobre nosso rumo. Mas aqui entramos na parte menos popular do Yoga, tema para outro texto...

Rodrigo Gomes Ferreira
Professor de Vedanta e Meditação

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