10 de maio de 2009

Yoga ou Ioga?



A história do yoga está indissoluvelmente ligada à história da Índia, que foi o berço da civilização e mãe criadora do universo das ciências.
O yoga é inerente ao ser humano. As crianças fazem espontaneamente técnicas de yoga, nas brincadeiras de forma instintiva. Isto porque ele faz parte da nossa essência.
O yoga nasceu da compreensão das manifestações externas da natureza e suas influências sobre a consciência humana. Ele existiu antes da filosofia. Quando um rishi vai para a floresta e renuncia a sua vida profana, faz uma série de descobertas, ma o essencial continua sendo a prática. A filosofia surge quando houve necessidade de transmitir e explicar esta prática, técnica e contemplação ascese.
A palavra Yoga, se traduzida literalmente do sânscrito, nos leva à mesma idéia do vocábulo latino que gerou a palavra religião. E yoga vem do “Yuj” que quer dizer União, jungir, arrear, reconstituir, religar. Yoga é a integração do ser em sua totalidade, unindo matéria e espírito.
O yoga hoje chega ao ocidente, mas para este lado do mundo, yoga é apenas mais um método de condicionamento físico. Contudo, o yoga sendo uma das primeiras manifestações da cultura indiana, toma novo e grande impulso nesse século e em todo mundo. As posturas são somente a “pele” do yoga, como cita FEUERSTEIN. Mas pese que nem sempre se busca ou se tem a real compreensão de seus objetivos e tradição. E continuando com o autor, “Yoga é um ramo particular da gigantesca árvore da espiritualidade hindu. (FEUERSTEIN, 1998)”
O Mahâbharata afirma que Yoga é a atividade (pravriti ou rajas), Bhagavad Gita define Yoga como equanimidade (samatva).
Em 1921, arqueólogos descobriram, no que é hoje o Paquistão, antigas cidades de Harappa e Mohenjo-Daro e Mehrgarh que é a mais antiga, e data de 6.500 a.C. Em outro local, em frente a costa Ocidental da Índia, encontrou-se vestígios arqueológicos de uma cidade submersa no mar, a quarenta metros de profundidade, nesta cidade existiam casas com banheiro, ossos humanos, pérolas, tudo isto datado de 7.500 a.C. Nos sítios arqueológicos do Vale do Rio Indo, encontrou-se cidades dravidianas, e nelas, as evidências do uso de carroças, carros de combate e cavalos como montaria individual, o uso do cobre, cevada e gado, e sinetes feitos de pedra sabão. A astronomia védica e o conhecimento matemático que influenciou fortemente a matemática babilônica, também se comprovou que eram bastante desenvolvidas para a época, e acreditava-se, tinha sido um legado ariano.
Estes escombros arqueológicos localizaram evidencias de alguma forma do Yoga, versados nos hinos do Rig Veda, onde se destaca uma rica cultura com rituais, agregados a uma vivência. Já nesta época se praticava a concentração com uso de mantras, ritmos na respiração. Aqui nasceram os pranayamas, a meditação, a invocação aos deuses e as posturas psico-físicas (ásanas), o que originou o Hatha Yoga, e o estado mais elevado do yoga, o Samadhi.
Já Caio Miranda, acredita que o yoga é oriundo da antiga civilização da Atlântida.
Arqueologistas da modernidade verificaram que a cidade de Harappa não foi destruída por invasões, mas em virtude de mudanças geológicas e climáticas. Depois que o rio Sarasvati secou, as cidades que existiam à sua margem, foram abandonadas.
Muita controvérsia existe a respeito da origem histórica do yoga, particularmente pela despreocupação dos indianos em registrar precisamente o início de sua história. Entretanto, Sandra Cury diz que "o mito pode ser um recurso para trazer a tona uma expressão da realidade, para transmitir a sabedoria dos filósofos, simbolizar os mistérios Divinos, mostrar as potencialidades espirituais, para interpretar a existência, usando a criatividade e a intuição pelo movimento do inconsciente”.
Não há uma idade certa, porém sabe-se que sua origem foi no Vale do Indo, e seus ensinamentos eram passados oralmente, de mestre para os discípulos, o parampara. Por meio do parampara o yoga foi atravessando o tempo e chegou aos dias de hoje. Sua essência não se perdeu, continua a mesma, mágica, imutável e atemporal.
Existe um texto fundamental do Yoga Clássico, o yoga-sutra, que foi codificado por um mestre chamado Patanjali. Segundo o yoga sutra de Patanjali, Yoga é a cessação dos turbilhões da mente. Já segundo o hatha-yoga pradipika, Yoga é a sensação dos turbilhões da respiração. “Aprender sobre a evolução histórica do Yoga não é mero exercício acadêmico, na realidade é algo que aumenta a compreensão que temos de nós mesmos, e na mesma medida, intensifica o nosso empenho em libertar-nos dos grilhões da personalidade egóica. (FEUERSTEIN, 1998)”.
A abordagem histórica do Yoga torna-se um desafio, porque os fatos históricos se misturam com a mitologia confundindo ainda mais a história.
Nos upanishads, 1500 a.C., textos onde o Yoga é colocado de modo a voltar-se para si próprio, através dos yamas que significam a libertação espiritual, o yoga se faz metafísico. Fazendo deste modo o yogin um ser completo, que deve observar-se corpo e mente, regular e controlar o prana através da respiração e praticar (em lugar tranqüilo e específico) posturas, para se ter benefícios com o Yoga.
O yoga, em sua primeiríssima forma identificável, estava ligado ao ritualismo sacrificial dos povos védicos, que criaram a literatura mais antiga existente no mundo, o proto-yoga dos vedas, um conjunto de doutrinas e práticas na época do rig-veda, o mais importante dos quatro hinários védicos, composto muito antes de 1.900 a.C. O yoga védico consistia em técnicas de concentração mental, controle da respiração, canto e adoração ritual. Para os sacerdotes védicos, o Yoga tinha uma conotação de transcendência, através de rituais, que faziam entrar em transe induzido, alcançando iluminação do espírito ou alteração da consciência. Seus objetivos eram a invocação, a visualização e até mesmo a união com diversas divindades, revelando que a mais antiga forma do yoga é a prática da introspecção disciplinada, ou da concentração meditativa associada aos rituais de sacrifícios, como nos quatro vedas (dada a exigência de concentração máxima para a perfeita exatidão nos rituais), o que anuncia uma das raízes do yoga posterior, o dos upanishads, de quase dois mil anos após, considerados como uma continuação da revelação védica.
Alguns textos afirmam que o yoga nasceu do xamanismo. A tradição yogi teria surgido a partir da perseguição aos xamãs. Entretanto o yoga dá mais ênfase a autotranscendência do que à aquisição de poderes mágicos, o que é a tônica do xamanismo.
Existem muitos textos sobre Hinduísmo e sobre o yoga. Os quatro primeiros e os mais preciosos textos do Hinduísmo são considerados sagrados, os vedas. São eles: rig-veda, yajur-veda, sama-veda e atharva-veda. Ainda, os upanishads, o próprio rig-veda e o bhagavad-gita, estão entre os textos mais antigos escritos sobre yoga.
As lendas e mitos relatam o yoga e o agregam em sua grandeza, a uma multiplicidade de conhecimentos, que por vezes escapa a nossa compreensão. Os mitos incorporam personagens diversificados, como por exemplo: Matsyendranath.
Reportando-se as origens do Yoga, o mito fala de uma conversa entre Shiva e sua esposa Parvati, irmã de Ganga (Ganges) e filha do Himalaia. Esta conversa aconteceu um dia no fundo do mar, quando Shiva ensinava a disciplina do Yoga à sua esposa, que acabou adormecendo. Matsyendranath ouvia tudo por ter se escondido no mar dentro da barriga de um peixe, de nome Leviata. Aprendendo tudo que Shiva ensinou, Matsyendranath preparou-se por 12 anos até que saindo de dentro da barriga de Leviata, torna-se Matsyendranath, o rei dos peixes, por aprender os mistérios do Yoga e propagá-los a partir daí. Esta é uma lenda universal, uma das formas mais conhecidas de contar a origem do yoga.
Entretanto, há ainda outra lenda a respeito do yoga, a de Shiva Nataraja.
Shiva aparece como o rei (raja) dos dançarinos (nata). Ele dança dentro de um círculo de fogo, símbolo da renovação e, através de sua dança, Nataraja cria, conserva e destrói o universo. Ela representa o eterno movimento do universo que foi impulsionado pelo ritmo do tambor e da dança. Apesar de seus movimentos serem dinâmicos, como mostram seus cabelos esvoaçantes, Shiva Nataraja permanece com seus olhos parados, olhando internamente, em atitude meditativa. Ele não se envolve com a dança do universo, pois sabe que ela não é permanente. Como um yogi, ele se fixa em sua própria natureza, seu ser interior, que é perene. Em uma das mãos, ele segura o Damaru, o tambor em forma de ampulheta com o qual marca o ritmo cósmico e o fluir do tempo. Na outra, traz uma chama, símbolo da transformação e da destruição de tudo que é ilusório. As outras duas mãos, encontram-se em gestos específicos. À direita, cuja palma está a mostra, representa um gesto de proteção e bênçãos. A esquerda representa a tromba de um elefante, aquele que destrói os obstáculos. Nataraja pisa com seu pé direito sobre as costas de um anão. Ele é o demônio da ignorância interior, a ignorância que nos impede de perceber nosso verdadeiro eu. O pedestal da estátua é uma flor de lótus, símbolo do mundo manifestado. A imagem toda nos diz: "Vá além do mundo das aparências, vença a ignorância interior e torne-se Shiva, o meditador, aquele que enxerga a verdade através do olho que tudo vê”.
Conclusão
Na Índia há uma continuidade dos tempos, onde tudo parece contextualizar-se na história, indefinindo o real do irreal, o concreto do abstrato, parece que as figuras mitológicas se relacionam naturalmente na vida e se misturam de forma quase verídica. As deidades se formulam na filosofia, na ciência e no dia a dia. Assim definindo uma sociedade mística, exuberante e reflexiva em uma cosmovisão atemporal. A Índia mostra ao longo da história, toda a sua influência no ocidente, no Oriente Médio, Ásia, Grécia e Roma. Pensadores ocidentais também sofreram influência indiana, citando apenas alguns como Schopenhauer, Goethe e Nietzshe. Kalyama fala também que “a herança espiritual da Índia é incomparável, e que o yoga é a pedra mais preciosa do conhecimento indiano. (KALYAMA, 2003)”.
As dificuldades do ser humano repousam na perspectiva de uma vida ignorando a real existência do mesmo como consciência pura.
Para que se viva em paz e com felicidade, o Samkhya e o yoga sugerem que se permaneça livre de atividades centradas em si, o que nos remete a raiz etimológica da palavra yoga, demonstrando que o que deve ser jungido ou arreado é a atenção.
O início histórico do yoga, como já citado anteriormente, é sustentado pelas evidências arqueológicas surgidas com as escavações de 1921, evidencias sobre a civilização do Indo-Sarasvati. Em verdade, as raízes do yoga estão dispersas num passado remoto com muitas teorias. Mas, fato é que, o yoga, é produto de um desenvolvimento complexo e intrincado, cronologicamente difícil de fixar na história.
O yoga, sistema tradicional indiano, nos remete à flexibilidade, e tem como definição, a tecnologia psicoespiritual específica da grande civilização da Índia.
É uma tradição que veio por milênios encantando e empolgando culturas, com sua história, mitos e lendas, seus deuses e sua tradição que enriquece pessoalmente e promove crescimento espiritual.
E o yoga, vem para contribuir no desenvolvimento da consciência da humanidade, para que haja uma transformação do mundo que vem sendo degradado.
Dentro do Hinduísmo, há alguns ramos de yoga que se destacam:
1. Râja-yoga – o yoga real ou yoga clássico;
2. Hatha-yoga – o yoga da força;
3. Jnâna-yoga – é o yoga da sabedoria;
4. Bhakti-yoga – é o yoga devocional;
5. Karma-yoga – é o yoga da ação;
6. Mantra-yoga – o yoga dos sons poderosos;
7. Tantra-yoga – o yoga da continuidade, que inclui o Kundalini-yoga (yoga do poder da serpente), e o Laya-yoga (yoga da dissolução).
Silvana Schafhäuser
Yogaterapeuta pela Faculdades Integradas "Espírita" 


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