5 de junho de 2009

Yoga e mudrá


Mudrá é uma palavra sânscrita que significa gesto, selo ou matriz. Os mudrás são a fonte de uma linguagem gestual e corporal que se origina na tradição tântrica, e está indissoluvelmente associada ao registro akáshico, o espaço sutil onde estão armazenados todos os conhecimentos e feitos da Humanidade desde seus primórdios.

Essa linguagem busca a realização de determinados estados de consciência através da simbologia e das mensagens contidas em certos gestos arquetípicos que atuam por ressonância e associação neurológica. Tocam os estratos mais profundos do ser humano, permitindo-nos redescobrir o conhecimento escondido em cada gesto e transportar-nos aos processos de consciência a que eles aludem.

Muito pouco tem se escrito sobre estes gestos. Menos ainda, sobre as formas em que eles podem utilizar-se na prática, seja de Yoga, seja de dança. Quando os mudrás são mencionados na literatura, figuram apenas como símbolos que se referem às diferentes deidades hindus, a eventos artísticos ou religiosos, ou ainda no teatro, na dança e em cerimônias religiosas, como meios para identificar os deuses.

Algo que freqüentemente deixa de ser mencionado, mas que nós estudaremos neste livro, são os aspectos energéticos e metafísicos dos gestos. Eles influenciam a forma como percebemos a energia vital, aumentando seu caudal e canalizando-a através de diversas técnicas do Yoga, que visam a aumentar o estado geral de saúde, expandir as percepções, disciplinar a mente e aprofundar os estados de meditação. O termo deriva das raízes mud, encanto, magia, satisfação, e rati, dar, doar. Literalmente pode traduzir-se como aquilo que outorga encanto, força ou poder. Em algumas obras aparece incorretamente traduzido como símbolo, porém, embora alguns mudrás sejam simbólicos, existe outro termo (yantra) para designar os símbolos em si. Pronuncia-se sempre com a tônico.

Possui três significações bem diferentes: por um lado designa os gestos feitos com as mãos; por outro, em alguns textos (principalmente de Hatha Yoga, modalidade de Yoga tântrico, surgida no século xi d.C.) designa outras técnicas fisiológicas, como ásanas (posições físicas) ou bandhas (contrações de plexos e órgãos); e ainda, no contexto do tantrismo, mudrá designa a Shaktí, a parceira com quem se pratica o maithuna, a união sexual ritual. A primeira acepção é a que nos interessa.

No Yoga e na dança, a palavra mudrá designa exclusivamente os gestos feitos com mãos e dedos. A riqueza da linguagem gestual reside no fato de que estes gestos revelam significações distintas, de acordo com o contexto e a pessoa que os percebe. Eles aludem a verdades eternas, valores, idéias, conceitos ou estados emocionais que são diferentes para cada um de nós, pois, a partir de suas múltiplas interpretações, falam diretamente ao eu profundo.

O Yoga e as danças tradicionais da Índia nos revelam o significado dos gestos, em que idéias e sentimentos são manifestados por meio de símbolos. Eles formam parte do legado da Humanidade e de nossas vidas, impregnando-nos até o mais íntimo do ser, muitas vezes sem que o percebamos. Mostram-nos a unidade essencial das coisas, as correspondências entre o mundo sensível e o mundo das idéias.

O hinduísmo como um todo se nos apresenta cercado de símbolos e emblemas, representação de idéias e propriedades da Natureza que muitas vezes revelam qualidades ou poderes das suas diferentes manifestações, sob a forma de deidades. Tudo é significativo, convergente e recíproco: o segredo está em saber ver, decifrar o que a Natureza, o Yoga, o Tantra e as culturas chamadas primitivas nos mostram. Assim, poderemos remontar-nos à origem, resgatar a liberdade e os valores eternos do ser, dos quais fomos afastados pela tirania moral, patriarcal e religiosa das civilizações industriais e urbanas.

Pedro Kupfer
Fonte: www.yoga.pro.br


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