30 de agosto de 2009

Pode a intuição ser reduzida ao intelecto?

Ora, a intuição é algo que ultrapassa o intelecto, algo que não pertence ao intelecto, é algo que vem de algum lugar em que o intelecto é completamente inconsciente. Portanto, o intelecto pode senti-la, mas não a pode explicar.
Explicar significa ter de responder à pergunta sobre de onde ela vem, porque vem, o que a causa. E ela vem de um outro lugar, não vem do intelecto em si – pelo que não há qualquer causa intelectual. Não existe nenhuma razão, nenhuma ligação, nenhuma continuidade dentro do intelecto.
A intuição é um domínio diferente do acontecer, não tem qualquer relação com o intelecto, embora possa penetrar no intelecto. É preciso compreender que uma realidade mais elevada pode penetrar numa realidade mais baixa, mas a mais baixa não pode penetrar na mais elevada.
Da mesma forma, a sua mente pode penetrar no seu corpo, mas o seu corpo não pode penetrar na sua mente. O seu ser pode penetrar na sua mente, mas a mente não pode penetrar no ser. É por essa razão que, se desejar penetrar no seu ser, terá primeiro de se separar tanto do seu corpo como da sua mente. Estes não conseguem penetrar num fenómeno mais elevado.
À medida que se vai entrando numa realidade mais elevada,
o mundo mais baixo do acontecer tem de ser deixado para trás.
Mas o intelecto pode sentir a lacuna, pode conhecer a lacuna. Pode acabar por sentir que “aconteceu qualquer coisa que me ultrapassa”. E se o conseguir fazer, o intelecto já fez muito.
Se achar que aquilo que não se pode explicar pelo intelecto não existe, tal acontece porque o leitor é um “não crente”. E nesse caso continuará nesta existência inferior do intelecto, acorrentado a ela. Não aceitará o mistério, não aceitará que a intuição lhe fale.
“Isso não pode ser. Deve ser imaginação; deve ser um sonho meu…” Uma mente racional torna-se fechada, fechada dentro dos limites do raciocínio, e a intuição não conseguirá penetrar nela. Contudo, o leitor poderá utilizar o seu intelecto sem se fechar. Poderá usar a sua razão como um instrumento e, desse modo, manter-se aberto.
O intelecto poderá ser usado para exprimir – não para explicar mas para exprimir. Um buda não “explica” coisa nenhuma. Ele exprime, mas não explica. Todos os Upanishads são expressivos sem quaisquer explicações. Dizem eles: “Este é o tal, isto é assim; isto é o que está a acontecer. Se quiserem, podem entrar. Não fiquem de fora; não é possível nenhuma explicação do interior para o exterior. Portanto, entrem – fiquem no interior.”
O intelecto poderá tentar compreender, mas está condenado ao fracasso.
O mais elevado não pode ser reduzido ao mais baixo.
A INTUIÇÃO VIAJA SEM QUALQUER VEÍCULO – é por essa razão que ela é um salto; é por essa razão que ela é um pulo. É um salto de um ponto para outro ponto, sem qualquer interligação entre os dois.
A intuição é um salto – não é uma coisa que venha até si dando passos. É algo que lhe está a acontecer, não algo que está a vir até si – alguma coisa que lhe está a acontecer sem ter uma causalidade, sem ter qualquer origem. Este súbito acontecer significa intuição.
Nem sequer é um fenómeno; é unicamente um pulo do nada para o ser.
A intuição significa exactamente isso – e é por isso que a razão a nega. A razão nega-a porque é incapaz de a encontrar. A razão só consegue encontrar fenómenos que possam ser divididos em causa e efeito.
Ora, o misticismo diz que há três domínios: o conhecido, o desconhecido e o incognoscível. Por incognoscível, o místico refere-se àquilo que nunca poderá ser conhecido. O intelecto tem a ver com o conhecido e com o desconhecido, mas não com o incognoscível.
Não é que os nossos instrumentos não sejam suficientemente bons ou a nossa lógica não seja actualizada, ou a nossa matemática seja primitiva – a questão não é essa. A qualidade intrínseca do incognoscível é ser incognoscível; existirá sempre como incognoscivel.
O domínio da intuição é esse.
Quando alguma coisa do incognoscível vem a ser conhecida, há um salto – não há qualquer ligação, não há qualquer passagem, não há qualquer maneira de ir de um ponto para outro ponto.

A intuição é possível porque o incognoscível está lá. A ciência nega a existência do divino porque afirma: “Há unicamente uma divisão; o conhecido e o desconhecido. Se existir algum Deus, nós descobri-lo-emos através de métodos laboratoriais. Se ele existir, a ciência descobri-lo-á.”
Por seu lado, o místico diz: “Faça-se o que se fizer, alguma coisa no próprio fundamento da existência será sempre incognoscível – será sempre um mistério.” Se não houver mistério, todo o significado da vida e toda a beleza serão destruídos.
O incognoscível é a beleza, o significado, a inspiração, a meta. É por causa do incognoscível que a vida significa alguma coisa. Quando se conhece tudo, então tudo se torna desinteressante.
O incognoscível é o segredo; é a própria vida.
A razão é um esforço para conhecer o desconhecido e a intuição é o acontecer do incognoscível. Penetrar no incognoscível é possível, mas explicá-lo não o é. O sentimento é possível; a explicação não é. Existem razões mais profundas que a razão não pode compreender. Razões mais elevadas, que a razão é incapaz de conceber.
Quando o corpo reage espontaneamente, diz-se que isso é instinto.
Quando a alma reage espontaneamente, diz-se que é intuição.
Ambos se parecem mas, no entanto, encontram-se muito afastados um do outro.
O instinto pertence ao corpo – o grosseiro;
e a intuição pertence à alma – o subtil.
E entre os dois fica a mente, conhecedora, que nunca reage espontaneamente.
Mente significa conhecimento.
O conhecimento nunca pode ser espontâneo.
O instinto é mais profundo do que o intelecto e a intuição é mais elevada do que o intelecto.
Ambos ficam para lá do intelecto, e ambos são bons.
OSHO, Intuição, conhecer para além da lógica, Editora Pergaminho, 2008
Fonte: http://holyvenus.blogspot.com/


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