16 de setembro de 2009


O Pássaro e o homem tem essências diferentes.

O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;

o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.

Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita

é outra. Muitos falam como o mar, mas vivem como os

pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes;

mas sua alma jaz nas trevas das cavernas. A civilização

é uma arvore idosa e carcomida, cujas flores são a

cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e

o desassossego. Deus criou os corpos para serem os

templos das almas. Devemos cuidar desses templos para

que sejam dignos da divindade que neles mora. Procurei

a solidão para fugir dos homens, de suas leis, de suas

tradições e de seu barulho. Os endinheirados pensam que

o sol e a lua e as estrelas se levantam dos seus cofres

e se deitam nos seus bolsos. Os políticos enchem os

olhos dos povos com poeira dourada e seus ouvidos

com falsas promessas. Os sacerdotes aconselham os

outros, mas não aconselham a si mesmos, e exigem dos

outros o que não exigem de si mesmos. Vã é a

civilização. E tudo o que está nela é vão. As descobertas

e invenções nada são senão brinquedos com a mente

se diverte no seu tédio. Cortar as distâncias, nivelar

as montanhas, vencer os mares, tudo isso não passa

de aparências enganadoras, que não alimentam o

coração e nem elevam a alma. Quanto a esses

quebra-cabeças,chamados ciências e artes, nada são

senão cadeias douradas com os quais o homem se acorrenta,

deslumbrados com seu brilho e tilintar. São os fios da tela

que o homem tece desde o inicio do tempo sem saber que,

quando terminar sua obra, terá construído a prisão dentro

da qual ficará preso. Uma coisa só merece nosso amor

e nossa dedicação, uma coisa só... Éo despertar de algo

no fundo dos fundos da alma. Quem o sente não o pode

expressar em palavras. E quem não o sente, não poderá

nunca conhecê-lo através de palavras. Faço votos para

que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.


Khalil Gibran


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