7 de dezembro de 2009




O silêncio do corpo e o vazio da mente

“Se você deseja tranqüilizar o seu espírito e fazer com que ele recupere sua pureza original, deve proceder como se quisesse purificar um jarro de água barrenta do rio. Primeiro é preciso deixar assentar no fundo os sedimentos do barro, de modo que a água fique transparente: isso corresponde ao estado de espírito antes de ser perturbado pelas paixões e pelos temores. É aí, com atenção e cuidado, que você deve escoar a água cristalina em outra jarra, sem agitar o que ficou no fundo. Quando o espírito está tranqüilo e concentrado numa perfeita unidade, então todas as coisas podem ser vistas na sua unidade natural, no estado perfeito em que foram criadas e permanecem pela eternidade.”

Do antigo texto budista que fala da felicidade humana usando a metáfora da água, entendemos que podemos transformar, através da meditação, o fluxo incoerente de pensamentos numa corrente de movimento sereno, cuja direção nos pertence. Pela habilidade de retermos a consciência em estado puro, para além das flutuações e mudanças no plano mental, nos impulsionamos para atingir um manancial de saúde e bem-estar: o silêncio do corpo e o vazio da mente. Significa que podemos ser capazes, quando precisarmos e assim o quisermos, de acalmar a mente, apaziguar as emoções e clarear o campo turvo de pensamentos e sentimentos ocasionais que parecem vir do nada e partir numa direção desconhecida - aquilo que os hindus denominam "maya": o véu das aparências e ilusões.
De início, vamos nos deparar com nossas indisposições físicas - problemas digestivos, dores de cabeça e coluna, falta do necessário descanso e do sono... E vamos nos deparar também com um obstáculo de caráter astral e mental que está baseado em nossos sentimentos e pensamentos. Nestas condições, é bem possível que ao nos sentarmos aparentemente calmos e nos recolhermos em meditação, comecemos a dormir. Então, é interessante que interrompamos a meditação e, confortavelmente, nos deitemos para dormir de verdade um belo sono reparador. Todavia, devemos acautelar-nos para não fazer disso uma regra, pois nos tornaremos preguiçosos e desistiremos de meditar.
Devemos disciplinar-nos gradualmente, sobrepujando através de um esforço paulatino e concentrado os estados de perturbação e de desequilíbrio emocional ou mental, até conseguirmos um estado de relaxamento alerta. Devemos sobrepujar mesmo estados de depressão, insegurança, ansiedade, desapontamento e frustração - esses pequenos inimigos mortais que fazem parte da entropia nossa de cada dia. Devemos evitar a autopiedade e a auto-indulgência. Julgando-nos com severidade obtemos paz interior, justiça e eqüidade. Não podemos perdoar nem nos permitirmos fazer aquilo que seria ruim para nós mesmos, bem como perdoar em nós mesmos o que condenamos nos outros - essa auto-sabotagem não significa nada além de obstáculos perigosos e traiçoeiros. A preguiça, a ineficácia, a hipocrisia, a mente e os sentimentos impuros, tão repulsivos quando vistos nos outros, devem ser considerados mais repulsivos se existirem em nós.
A meditação é fator evolucionário, portanto, pertence ao Bem. De tal modo que, quando meditamos, nenhum dano pode nos ser feito por qualquer pessoa má, nem de modo oculto, nem de modo explícito. Mais objetivamente: meditando nos livramos do mal.
Portanto, a meditação deve ser abordada como uma fonte de alegria, prazer, felicidade. Este conhecimento nos ajudará a transpor a resistência da mente com todas a suas extravagâncias ilusórias e astutas.
A partir disso, um sentimento de liberdade interior, certeza e segurança se instauram e assumem o comando das nossas emoções e paixões em nossas próprias mãos - nos tornamos capazes de pilotá-los para o porto escolhido.
O espírito de urgência sem eco e ansiedade vazia que assola o planeta deve ser banido. Milhões de pessoas estão dedicando as próprias vidas ao físico e às conquistas materiais que elas não poderão levar consigo em sua viagem futura, além do túmulo... Esta compreensão deveria acalmar qualquer tensão nervosa que assola a humanidade nos tempos atuais.
Norberto José Teixeira



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