15 de fevereiro de 2010



Onde houver desespero, que eu leve a esperança

O ser humano concreto é constituído por vários centros energéticos que conferem dinamismo à vida: o desejo, o instinto de sobrevivência, o cuidado, o amor, a capacidade de captar totalidades. Um dos principais é também a esperança, entendida não apenas como uma virtude, mas como um princípio gerador de muitas virtudes. A esperança é a energia básica que dinamiza todas as demais. Podemos perder a fé e a conseqüência é uma aterradora ausência de sentido. Mas a vida continua. Podemos perder o amor e desaparece o brilho e a alegria de viver. Mas as pessoas sobrevivem e procuram um novo amor. No entanto, quando perdemos a esperança, desaparecem todas as razões para viver. A loucura, o suicídio e a morte são os fantasmas que rondam os que perderam a esperança. É o inferno do desespero. As cenas de desespero são as mais terríveis: os olhos saltam das órbitas, os rostos deformam-se, as pessoas atiram-se dos andares mais altos, lançam-se ao mar encrespado, arremessam o carro ao abismo. Por medo de morrer, por vezes o desesperado mata-se. O desespero surge quando a pessoa é colocada numa situação sem saída e se vê encurralada.
Atualmente, entre as muitas situações de desespero, duas ressaltam sobremaneira: a miséria social e a consciência da morte próxima e inevitável. Mais de mil milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza. Os números mal escondem o desespero dos que não sabem o que vão comer, onde vão dormir e como chegar ao dia de amanhã. A dor maior é ver os filhos sofrerem de fome e não saber a quem recorrer. É parca a solidariedade entre os humanos. As gerações futuras, ao olharem para o nosso tempo, condenar-nos-ão como bárbaros, inumanos e sem piedade, porque temos sido demasiado insensíveis perante os padecimentos dos nossos próprios irmãos e irmãs.
Quantos entram em desespero quando descobrem que a pessoa que lhes é mais querida tem sida ou que o cancro de um filho já produziu metástases nos principais órgãos vitais. Fecha-se o horizonte do futuro. A morte lança a sua sombra letal sobre a vida. A ideia da morte anunciada é uma das realidades mais difíceis de serem digeridas pelo organismo espiritual humano. O primeiro sentimento é de injustiça: porquê eu, porquê ele ou ela, se há tantos perversos que mereceriam morrer antes? Depois vem a revolta: porquê morrer agora e não ao cumprir o ciclo da vida? Por fim surge a autovitimação: a pessoa sente-se vítima inocente de mecanismos incontroláveis da natureza e do próprio corpo, que de repente se torna estranho e traiçoeiro. Procuram-se, então, todos os possíveis caminhos de cura. Potencia-se a esperança de que haja médicos, curandeiros, paranormais, portadores de saberes secretos que nos possam salvar. Quando nada sustém a ação devastadora da morte, a pessoa rende-se e resigna-se. No entanto, milagres acontecem: nem sempre a cura tão procurada, mas a reelaboração do sentido da vida através de uma serena entrega a Deus. Por causa da fé, a morte deixa de ser para muitos um fantasma aterrador e transforma-se em serena libertação. Como levar esperança? Perante as situações de injustiça, é o engajamento concreto contra elas que funda uma esperança histórica. Os processos vitoriosos de mudança – por menor que seja – abrem sempre um novo horizonte de esperança que confere sentido à vida e à luta. Nos momentos de desamparo pessoal, mais do que muitas palavras, o importante é comunicar uma aura de serenidade e confiança aos desesperados. Essa aura só se conquista com a interiorização de convicções tão poderosas que passam a fazer parte do nosso ser: estamos nos braços do Pai e Mãe de infinita bondade. Por isso podemos entregar-nos aos seus cuidados. Por ventos favoráveis ou contrários, Deus conduzirá o nosso barco a porto seguro.
O caminho da vida pode ser tormentoso, mas o fim é bom e já está garantido pela certeza da ressurreição e pela promessa da vida eterna. A fênix renasce das cinzas e das sombras da morte pela esperança na vida transfigurada e feliz para além desta vida.
Fazei com que eu procure mais amar, que ser amado
Sentir-se amado é mais gratificante que amar, pois basta apenas acolher o amor gratuito do outro, sem ser necessário conquistá-lo ou dar-lhe provas de amor. Sentir-se amado é sentir-se importante e precioso para alguém. Aumenta a auto-estima e reforça o sentido de ser. De repente, sei que estou no coração e na mente de outra pessoa. Sou para ela um valor inestimável. Acompanha-me em cada gesto, procura saber cada pormenor da minha história, valoriza cada palavra minha e intui amorosamente cada intenção, por mais secreta que seja. Aquele que ama vive num estado de consciência alterado. Perde o interesse por si mesmo e entrega-se a forças que o arrastam irrefreavelmente na direção da pessoa amada. Esta aparece aos seus olhos como única e diferente de todas as demais no Universo. Experimenta um estado de arrebatamento e de potencialização de sentido que, em função da pessoa amada, reorganiza toda a vida. Todos querem ser amados; pois todos anseiam ser únicos para alguém. A frase mais triste que ouvi foi de uma jovem assistente social, mulher simples do povo, sem grandes dotes de beleza, segundo as pobres convenções da nossa cultura material: “Eu nunca fui amada; nunca fui interessante para ninguém; ninguém até hoje olhou para mim.” E os seus olhos traíam uma tristeza infinita. Uma mágoa profunda com a vida ingrata e cruel pesava em cada uma das suas palavras. O Universo parecia ter desabado sobre ela.
Sem amor, a vida perde significado e densidade. Tudo fica irrelevante e sem valor. É fundamental para o brilho da existência sentirmo-nos amados e acolhidos com enternecimento por aqueles que nos cercam. Por detrás do ateísmo, do gnosticismo e do indiferentismo talvez esteja essa experiência devastadora: a incapacidade de alguém se sentir acolhido como num útero, aceite como no seio de uma família e amado incondicionalmente por uma pessoa. Porque temos esta necessidade inarredável de sermos amados? Porque nós, seres humanos, desde que nascemos mostramos a tendência para nos unirmos a algo que nos realize, a algo que nos transcenda. As ciências da Terra dizem que esse algo representa a ação da seta do tempo e do impulso da evolução a empurrar-nos sempre para a frente e para cima, de convergência em convergência, na direção de uma culminância suprema. Os especialistas da psique humana aventam a ideia de que esse desejo de união representa a memória ancestral da nossa vida no útero materno. As religiões ensinam que esse algo é a ânsia por Deus como Alfa e Omega da nossa vida. Seja como for, o ser humano, ao sentir-se amado, vive a experiência de ter resgatado o paraíso terrestre ou ter chegado à Terra da Promissão.
O que significa procurar mais amar, que ser amado? É o convite para darmos o salto por cima de nós mesmos, para podermos propiciar amor ao outro e aos outros. Ao amar o outro, queremos que ele experimente uma absoluta realização – ser amado – e se sinta existencialmente o centro afetivo do nosso universo. Pois é exatamente essa a experiência que o amor nos permite ter.
Amar mais do que ser amado é, então, a força de sairmos de nós mesmos e de nos centrarmos no outro por causa do outro – dando-lhe valor, cuidado, ternura, cordialidade e convivialidade. São Francisco conseguiu amar os leprosos e todas as criaturas como irmãos e irmãs muito queridos. Por isso o seu universo é cheio de unção, enternecimento e respeito, porque permite que todos se sintam amados.
Esta atitude de um amor maior pode resgatar a humanidade ameaçada e salvar a vida do planeta Terra. Quem tem este tipo de amor superabundante conquista tudo: o próprio coração, a salvação eterna e o próprio Deus.
Leonardo Boff

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3 comentários:

Renata disse...

A mensagem é linda e nos inspira um desapego de nós mesmos ,amando o outro incondicionalmente é que nos libertamos de nossas amarras.obrigado por acrescentar tanta luz em nossas vidas abraços Renata.

Renata disse...

A mensagem é linda e nos inspira um desapego de nós mesmos ,amando o outro incondicionalmente é que nos libertamos de nossas amarras.obrigado por acrescentar tanta luz em nossas vidas abraços Renata.

Padma Shanti disse...

Obrigada Renata, procuro exercitar o desapego, tenho consciência que tudo perece, se transforma e passa...
A alma continua sua evolução. Procuremos não nos apegar a rótulos, posição social, nível intelectual e entender que tudo o que temos é emprestado. Quando partirmos importa o bem que fizemos, beijos no coração. Seja bem vinda!