14 de fevereiro de 2010



Reconciliação

O que podemos fazer quando magoamos pessoas e neste momento elas nos consideram suas inimigas? Estas pessoas podem ser membros da nossa família, da nossa comunidade ou de outro país. Penso que você sabe a resposta. Há poucas coisas a fazer. A primeira consiste em arranjar tempo para dizer: «Desculpa, magoei-te devido à minha ignorância, à minha inconsciência, à minha falta de jeito. Darei o meu melhor para me modificar. Não me atrevo a dizer-te mais nada.» Por vezes, não temos a intenção de magoar, mas, por não sermos suficientemente conscienciosos ou não termos tacto, magoamos alguém. É importante sermos conscienciosos na nossa vida quotidiana e falarmos de modo a não magoarmos ninguém.
A segunda coisa a fazer é tentarmos trazer à superfície a nossa melhor faceta, a parte da flor, a fim de nos transformarmos. Essa é a única forma de você demonstrar o que acabou de dizer. Quando se tornar diferente e agradável, depressa a outra pessoa reparará. Depois, quando vir uma oportunidade de se aproximar dessa pessoa, poderá ir ter com ela com a atitude de uma flor e ela aperceber-se-á imediatamente de que você está bastante diferente. É possível que você não tenha de dizer nada. Basta vê-lo assim e ela aceitá-lo-á e perdoar-lhe-á. Chama-se a isso «falar através da vida e não apenas através de palavras».
Quando começar a ver que o seu inimigo está a sofrer, surge a sabedoria interior. Quando você identificar em si próprio o desejo de que a outra pessoa pare de sofrer, isso é um sinal de verdadeiro amor. Mas tenha cuidado: às vezes pode acontecer que você julgue que é mais forte do que realmente é. Para pôr à prova a sua verdadeira força, experimente ir ter com a outra pessoa para escutá-la ou falar com ela e descobrirá logo se a sua compaixão carinhosa é genuína. Para se pôr à prova, você precisa da outra pessoa. Se se limitar a meditar sobre qualquer princípio abstrato, como a compreensão ou o amor, poderá estar apenas perante a sua imaginação e não perante a verdadeira compreensão ou o verdadeiro amor.
A reconciliação não implica assinar um acordo com a duplicidade ou a crueldade. A reconciliação opõe-se a todas as formas de ambição, sem tomar partidos. A maioria de nós quer tomar um partido em cada encontro ou conflito. Distinguimos o certo do errado baseados em provas parciais ou no que ouvimos dizer. Necessitamos de indignação para agirmos, mas mesmo a indignação justa e legítima não é suficiente. No nosso mundo, não faltam pessoas desejosas de se lançarem à ação. O que precisamos é de pessoas capazes de amar, de não tomar partido, para que possam abarcar toda a realidade.
Temos de continuar a praticar a consciencialização e a reconciliação até conseguirmos ver o corpo de uma criança do Uganda ou da Etiópia, que é só pele e osso, como se fosse o nosso, até que a fome e a dor existentes no corpo de todas as espécies sejam nossas. Então poderemos observar todos os seres à luz da compaixão e desenvolver um trabalho eficaz no alívio do sofrimento.
Thich Nhat Hanh 

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4 comentários:

Jorge disse...

Para refletir!!
Realmente doloroso descobrir que magoamaos, principalmente se não era a intenção. Mas se o peso da consciência surge, é porque estamos a caminho do equilíbrio.
Pedir desculpas e desculpar-se são sentimentos de humildade que surgem com o despertar. Fico às vezes me perguntando como aprenderíamos a não magoar sem magoar.

Um grande abraço,
Jorge

ONG ALERTA disse...

Perdoar é usar a sabedoria, tudo que for feito de coração tem um valor maior, paz.

Padma Shanti disse...

De nada vale termos conhecimento se ele não é usado com amor, se não for transformado em sabedoria. Estamos todos errando e aprendendo, por isso a tolerância e o perdão são peças fundamentais para nossa evolução espiritual.
Beijos, namastê!

alegria de viver disse...

Querida amiga
Achei o texto simplesmente maravilhoso.
Com muito carinho BJS.