27 de março de 2010


Falta de amor e de atenção podem ser uma emergência.
A psicologia ajuda a entender e aliviar, não a formar a personalidade. Assim a escola, a creche, o jardim-de-infância, não são lar nem família, professoras não são mães ou tias, e não se deveriam incumbir terceiros, por mais dignos e respeitáveis que sejam, dos deveres de nosso coração.
Que deveres são esses?
Abrir um espaço de ternura no cotidiano apressado e difícil, eventualmente cruel. Deixar aberta a porta dos diálogos não convencionais, com hora marcada, mas no fluxo habitual do interesse e do carinho. Amor em família é uma arte, um malabarismo, por vezes um heroísmo. Essencial como o ar que respiramos. Preparar alguém para viver não se faz com frases, mas convivendo. Preparar alguém para futuros relacionamentos, para ter um dia sua profissão, sua família, sua vida, se faz sendo humano, sendo terno, sendo generoso, sendo firme, sendo ético.
Sendo gente.
A idéia de que a vida é um bem, e que merecemos liberdade e felicidade, se transmite acreditando  nisso. Todo o nosso processo futuro se antecipa em casa. O respeito pelos filhos modela o respeito que terão pelos outros e por si. A chegada de mais uma criança ensina a dividir, a competir saudavelmente, a amar com generosidade e a se valorizar.
Isso não se incute com frases ensaiadas, mas com uma atitude geral. Isso que se chama clima.
Qual o clima que reina em nossa casa?
Se nossa postura for de uma desconfiança geral, não haverá palavras, joguinhos, terapeutas, que convençam a criança de que amar não é mortal, de que confiança é possível, e até de que a chegada de um irmão pode ser um barato.
O ambiente em que vive é que vai lhe indicar se é bom ter família, ter irmãos, amigos, amores, se vale a pena - se é possível amar e respeitar sem ser traído.
Conviver gera problemas e atritos, mas também alegria e crescimento pessoal. Vai haver ciúme entre irmãos? Vai. Também isso é norma, é antecipação de laços futuros.
Dividir pode ser ruim, pode ser desagradável: quem não quereria muito tudo para si: os brinquedos, os pais, a casa, o mundo, inteiro? Mas dividindo se reforçam auto-estima e capacidade de interação. É positivo, mas tem de nos ser mostrado assim. Nada disso exige grandes estudos ou recursos financeiros. Exige dedicação, exige delicadeza, exige ternura: o mínimo que pode esperar quem nasceu de nós.
Lya Luft, in
Perdas e ganhos
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2 comentários:

Maria José disse...

Páscoa significa renascimento. Desejo que neste dia, em que nós cristãos, comemoramos o seu renascimento para a vida eterna, possamos renascer também em nossos corações. Beijos e obrigada pela amizade.

Isabel José António disse...

Namasté!

Belo texto, simples e se senso comum. Prabéns!

Nem deveria ser preciso escrever um texto assim, de tão elementar
bom senso ele se reveste.

Mas para que alguns possam governar a seu bel prazer há que dessincronizar tudo e todos. Fazer com que não existam valores éticos e conseguindo sempre que os ricos sejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Ora, isto é contra a lei natural da vida que está assente, desde a sua formação, na cooperação, primeiramente entre as partículas iniciais e depois com a colaboração entre os seres humanos, célula e os outros seres vivos.

Há que aturdir, condicionar os pensamentos, as vidas, desviá-las dos seus melhores objectivos e incutir a competição desenfreada.

Logo acha-se natural o abandono das crianças, o não ter tempo, c cansaço desmesurado, a ira, a cólera e a desilusão.

Há que repensar este modo de viver
Que inventar um paradigma inovador
Em que se dê a prioridade ao SER
E em que se cultive sempre o amor

Por onde começarmos esta demanda?
Certamente a resposta está em nós
Levanta-te ò caminhante e anda
Não saberá que nunca estamos sós?

Ouve-te dentro do teu coração
Aquela voz sempre pura e alerta
Aqui tens ao dispor a minha mão
Deixo-te sempre a porta aberta

Um grande abraço

José António