1 de maio de 2010



O HOMEM FELIZ

Não resta dúvida que a felicidade depende em parte de circunstâncias externas e, em parte, da própria pessoa. Muitas pessoas infelizes julgam que seus sofrimentos têm causas complicadas e extremamente intelectualizadas. Não acredito que isso seja a causa. Acho que são apenas sintomas. Como regra geral, a pessoa desafortunada tende a adotar um credo desafortunado, e a pessoa feliz adota um credo feliz. Cada qual atribui sua felicidade ou infelicidade a suas crenças, quando o que acontece é exatamente o contrário.
Há certas coisas que são indispensáveis para a felicidade da maioria das pessoas, mas que são coisas simples: comida e casa para morar, saúde, amor, um trabalho satisfatório e o respeito dos outros. Para algumas pessoas, é também indispensável ter filhos. Quando nada disso existe, somente as pessoas excepcionais podem alcançar a felicidade.
Quando as circunstâncias externas não são francamente adversas, a felicidade deveria estar ao alcance de qualquer um, sempre que suas paixões e interesses se dirijam para o exterior e não para o interior. Assim, deveríamos evitar paixões egoístas e adquirir afetos e interesses que impeçam que nossos pensamentos girem perpetuamente em torno de nós próprios. As paixões que nos encerram dentro de nós próprios constituem um dos piores tipos de cárcere. As mais comuns são o medo, a inveja, a culpa, a autocompaixão e a auto-admiração. Não existe um interesse pelo mundo exterior, só a preocupação que possa nos causar mal ou deixar de alimentar nosso ego.
O homem feliz é aquele que vive objetivamente, aquele que é livre em seus afetos e conta com amplos interesses, aquele que assegura para si a felicidade por meio desses interesses e afetos, os quais, por sua vez, o convertem em objeto do interesse  e do afeto de muitos outros. De modo geral, recebe carinho aquele que sabe dar. No entanto, nos é inútil concedê-lo de forma calculada, como quem empresta dinheiro a juros.
Que pode fazer um homem infeliz porque está trancado em si?
Enquanto continuar pensando nas causas de sua infelicidade, permanecerá centrado em si e não poderá sair desse círculo vicioso.; se quiser sair, terá de fazê-lo por meio de interesses autênticos. Aquele que diagnosticou corretamente seu problema pode fazer muito por si. A questão de saber que interesses surgirão em nós, depois de havermos superado a doença do  egocentrismo deve ser deixada ao funcionamento espontâneo de nosso caráter e às circunstâncias externas.
O que precisamos não é de abnegação, mas sim dessa forma de dirigir o interesse para o mundo exterior, que conduz de maneira natural aos mesmos atos que uma pessoa absorta na consecução de sua própria virtude.
Bertrand Russel  

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