24 de julho de 2010

GIBRAN EM VERSOS


 A vida é como um sono
Por sonhos entremeado,
E os sonhos são reflexos
daquilo que a alma anseia.
E o segredo da alma
Para sempre nos escapa:
Ora o oculta a tristeza,
Ora a alegria o oculta.
E o sentido da vida
Também ele nos escapa
No bem-estar e na aflição.
Somente o que se eleva
Por sobre conforto e dor
Verá a sombra daquele
Que escapa à compreensão.

A religião, entre os homens,
É um campo cultivado
Por medo ou interesse.
Há os que dele esperam
A felicidade eterna
E há os ignorantes
Que temem o fogo do inferno.
Não fossem a recompensa
E o castigo prometidos,
Não se adoraria a Deus
Como se a religião
Fosse apenas um negócio
No qual lucram os que persistem
E perdem os que desistem.



Felicidade é uma sombra
Que se deseja de longe:
Quando se transforma em corpo,
dela se cansam os homens.
Tal como um rio, que corre
Com vigor para a planície
E que, ao atingi-la,
Se espraia, vagaroso,
E suas águas se turvam,
Assim os homens são felizes
Querendo o que está longe,
Mas, se o que desejam alcançam,
Morre-lhes o entusiasmo.
Se, por acaso, encontrares
Alguém que seja feliz
Com aquilo que possui,
Podes dizer: “Na verdade”,
Eis um caráter morto”.

As aspirações da alma,
Na própria alma se escondem:
Nem as aparências,
Nem as imagens as revelam.
Alguns dizem que as almas
Desvanecem-se,
Quando atingem a perfeição,
Como os frutos maduros
Caem das árvores
Ao sopro do vento.
Outros dizem
Que, quando dormem os corpos,
Na alma não permanece
Nem vigília, nem procura,
Como uma sombra no lago
Apaga-se, desaparece,
Quando a água se turva.
Erram todos,
Pois a centelha da vida
Não perece com o corpo
Nem com a alma fenece:
O que o vento do Norte enterra,
Ressuscita à passagem
Do vento do Leste.


O corpo é o útero da alma
Que o habita quietamente
Até a maturidade.
Então, ela se levanta
E o corpo volta ao nada.
A alma é, pois, o feto
E o dia da morte
É apenas dia do parto,
E esse parto é normal.
Certos homens são, contudo,
Apenas sombras estéreis
Como um arco não esticado.
São os intrusos da vida,
Pois as almas não nascem
De árvores ressecadas
Nem são concebidas na argamassa.
Quantas ervas há na terra,
Sem fragrância,
Quantas nuvens
No horizonte, sem chuva.
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Gibran, in
As procissões, trad. de Mansour Challita   

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