10 de agosto de 2010

O MEDO



Que é medo? Temos medo quando não há segurança física; se não temos garantida nossa próxima refeição, naturalmente sentimos medo. Assim, fisicamente, no sentido econômico, não haverá medo se a todo ente humano garantirem alimentos, roupa e morada. Essa é uma necessidade básica do homem, uma necessidade absoluta. Mas essa segurança física do homem, uma necessidade absoluta. Mas essa segurança física é negada pelas divisões nacionais e religiosas, as barreiras nacionais, com seus governos e exércitos, etc. Desse modo, nega-se justamente o que é absolutamente necessário a todos os homens – comida, roupa, teto – e isso por causa das ditas divisões nacionais e religiosas. Não pode deixar de haver medo enquanto existirem essas diferenças ideológicas, porque elas impedem o que é essencial ao homem. Ao vos denominardes italiano, inglês, russo ou americano, esta mesma asserção nega vossa própria segurança. Tende a bondade de prestar atenção, porque, com essa divisão, ireis criar guerras, produzir mais violência e, por conseguinte, ficar privados da segurança. Quando virdes isso como um fato real, e não como uma teoria ou conceito intelectual, então já não pertencereis a nenhuma nação, nenhuma sociedade, nenhuma cultura; e isso já é uma tremenda revolução.
O medo não é apenas reação das glândulas adrenais, mas também um processo psicológico. Para compreendermos o medo e dele nos libertarmos, não intelectualmente, porém de fato, temos de dispensar-lhe uma penetrante observação, de olhá-lo “bem de perto”. Quando a mente – educada que foi numa cultura que aceita o temor como parte da vida com toda a sua violência – compreender o medo, teremos então, talvez, a possibilidade de ficar completamente livres dele, não só consciente, mas também inconscientemente. Para examinarmos esta questão do medo, temos de estar vigilantes, isto é, cabe-nos observar nosso próprio medo, não o medo de que nos falam, ou o medo do desconhecido, porém o medo que deveras sentimos. O medo não existe sozinho, não é um fato isolado; ele existe em relação com alguma coisa. De tantas coisas temos medo: medo do escuro, medo de errar, de não seguirmos a tradição e não podermos ajustar-nos à sociedade em que vivemos. Tememos a morte, tememos nossa mulher ou marido, etc. Esse medo nasce da violência. Vede, por favor, como outro dia dissemos que aqui não estamos fazendo uma conferência; não estais apenas a escutar um orador, aceitando ou rejeitando o que ele diz, porém, sim, nós estamos investigando juntos o problema da violência e, portanto o problema do medo.
Como já dissemos cada problema está relacionado com todos os problemas dos entes humanos. Se pudermos compreender totalmente um só problema, veremos, então, que ele está relacionado com todos os outros problemas e a mente, por conseguinte, estará libertada de todos os problemas humanos. A liberdade é necessária, liberdade para investigar, olhar, observar; mas, nós não temos essa liberdade, não somos entes livres. Quanto mais progride a civilização, tanto mais detestamos a tirania e todas as formas de ditadura.
A ditadura é um retrocesso, mas, e isso é que é estranhável, não temos objeção à ditadura religiosa. Aceitamos o sacerdote, o dogma, a tradição, os salvadores, os mestres, etc.; isto é, temos medo, e, por isso, aceitamos a autoridade. Por conseguinte, compreendendo o medo, coisa muito complexa, compreenderemos a natureza e a estrutura da autoridade e nos tornaremos a luz de nós mesmos, não dependentes de ninguém para dizer-nos o que devemos fazer. Isso é a da maior importância, tendo-se em vista, principalmente, que o caos, a anarquia e a violência se estão tornando cada vez maiores no mundo. Quando a mente está confusa, desorientada, sem saber o que fazer, então, porque sentimos medo, apelamos para alguma espécie de autoridade... Assim é urgente a necessidade de compreendermos esse complexo problema do medo, porque a mente que teme é incapaz de pensar com ordem e precisão. A mente que sente medo está confusa, vive na escuridão. E quase todos nós temos medo, medo de adoecer, medo da velhice e da morte, medo da opinião dos outros, etc. É possível, pois, a um ente humano, que tem de viver neste mundo, ficar radical e totalmente livre do medo – “livre”, não como idéia, como conceito intelectual, porém na realidade?
Krishnamurti

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