24 de setembro de 2010

SEJA NINGUÉM



Ser feliz também significa estar em paz, mas quase sempre as pessoas não querem realmente dirigir a sua atenção para isso. Existe uma conotação de “não interessante” em relação a isso, ou “nada acontecendo.” É óbvio que não haveria proliferações mentais, (papañca), ou excitação. A paz é considerada como a perfeição neste mundo, sob a perspectiva política, social e pessoal.
No entanto, é muito difícil encontrar a paz em qualquer lugar que seja. Uma das razões para isso deve ser, não só porque é difícil de ser alcançada, mas também por que muito poucas pessoas se empenham em tal realização. É como se isso fosse uma negação da vida, da supremacia de cada um. Só aqueles que se dedicam a uma prática espiritual estariam preocupados em dirigir as suas mentes para a paz.
Uma tendência natural é cultivar a própria superioridade, o que com freqüência conduz ao outro extremo, a própria inferioridade. Quando se tem em mente a própria superioridade é impossível encontrar a paz. A única coisa que pode ser encontrada é um jogo de poder, “O que quer que você faça, eu farei melhor.” Ou, em certas ocasiões, quando é evidente que esse não é o caso, então “o que quer que você faça, eu não posso fazer tão bem.” Na nossa vida, existem momentos em que temos de aceitar a verdade, quando vemos com clareza que não podemos fazer tudo tão bem quanto a pessoa que está ao lado, quer seja varrer o chão ou escrever um livro.
Esse tipo de atitude, que é bastante comum, é o oposto da paz. Uma exibição das próprias habilidades, ou ausência delas, irá produzir inquietação ao invés de paz. Existe sempre a busca, o desejo por um resultado sob a forma de reconhecimento pelas outras pessoas da nossa superioridade ou a negação desta. Quando ela é negada, surge o conflito. Ao admiti-la, é a vitória.
A vitória em relação a outras pessoas tem como causa subjacente uma batalha. Na guerra nunca há um vencedor, apenas perdedores. Não importa quem assine primeiro o armistício, ambos os lados perdem. O mesmo se aplica a este tipo de atitude. Existem apenas perdedores, muito embora um deles possa obter uma vitória momentânea, tendo sido aceito como aquele que sabe mais, ou como o mais forte ou o mais esperto. As batalhas e a paz não combinam.
Por fim nos perguntamos, alguém na verdade deseja a paz? Ninguém parece tê-la. Existe alguém realmente se esforçando para consegui-la? As pessoas conseguem na vida aquilo que buscam com forte determinação. É importante investigar no íntimo do nosso coração se a paz é realmente aquilo que queremos. A investigação do próprio coração é algo difícil de ser feito. A maioria das pessoas possui uma porta de aço grossa fechando a porta do seu coração. Elas são incapazes de entrar para descobrir o que ocorre ali dentro. Mas, tanto quanto possível, todos precisam tentar entrar e descobrir quais são as suas próprias prioridades.
Nos momentos de extrema agitação ou confusão, quando a pessoa não está obtendo a supremacia desejada, ou ela se sente realmente inferior, então tudo aquilo que ela deseja é a paz. Que tudo se aplaque outra vez, e que nem a superioridade nem a inferioridade sejam muito distinguíveis, mas então o que acontece? É realmente a paz que se quer? Ou o que se quer é ser alguém especial, alguém importante ou cativante?

Um “alguém” nunca terá paz. Existe um símile interessante sobre uma mangueira: um rei estava cavalgando pela floresta quando se deparou com uma mangueira carregada de frutos. Ele disse aos seus serviçais: “Venham ao anoitecer e colham as mangas,” porque ele queria as frutas para a ceia real. Os serviçais regressaram para a floresta e voltaram ao palácio com as mãos vazias dizendo ao rei: “Desculpe-nos senhor, todas as mangas se foram, não havia nenhuma manga na mangueira.” O rei pensou que os serviçais tinham tido preguiça de ir até a floresta e assim ele mesmo foi até lá. O que ele viu, ao invés da bela mangueira carregada de frutas, foi uma árvore patética, dilapidada, que havia sido agredida e despojada das suas frutas e folhas. Alguém, incapaz de alcançar todos os galhos, quebrou-os e levou todas as frutas. Assim que o rei caminhou um pouco mais, ele encontrou uma outra mangueira, bela no seu esplendor verdejante, mas sem nenhuma fruta. Ninguém teve interesse de se aproximar dela, já que não havia frutos, e assim ela foi deixada em paz. O rei voltou ao palácio, deu a coroa real e o cetro para os seus ministros e disse: “O reino agora é de vocês, eu irei viver numa cabana na floresta.”
Sendo ninguém e possuindo nada, não há perigo de conflitos ou ataques, então existe paz. A mangueira carregada de frutas não teve um momento de paz sequer: todos queriam os seus frutos. Se realmente desejamos a paz, temos que ser ninguém. Nem importante, nem esperto, nem belo, nem famoso, nem certo, nem no comando de nada. Precisamos ser discretos e com tão poucos atributos quanto possível. A mangueira sem frutos estava em paz em todo o seu esplendor e proporcionando sombra. Ser ninguém não significa nunca fazer mais nada. Significa apenas agir sem autopromoção e sem ambicionar resultados. A mangueira tinha sombra para dar, mas ela não exibia os seus atributos ou se preocupava se alguém queria a sua sombra ou não. Esse tipo de habilidade possibilita a paz interior. É uma habilidade rara, porque a maioria das pessoas vacila de um extremo ao outro, quer seja sem fazer nada e pensando, “vamos ver como eles se ajeitam sem mim” ou assumindo o controle e projetando as suas idéias e opiniões.
Ser “alguém” parece estar muito mais enraizado dentro de nós e ser muito mais importante do que ter paz. Então precisamos investigar com muito cuidado o que estamos buscando na verdade. O que é que queremos da vida? Se queremos ser importantes, queridos, amados, então também temos que tomar em conta os seus opostos. Cada positivo traz consigo um negativo, tal como o sol que cria as sombras. Se quisermos um, temos que aceitar o outro sem nos queixarmos disso.
Mas se realmente quisermos um coração e mente pacíficos, segurança e solidez internas, então temos que desistir de ser alguém, qualquer um que seja. O corpo e a mente não desaparecerão devido a isso, o que desaparece é a compulsão, a busca e a afirmação da importância e da supremacia desta pessoa em particular, chamada “eu.”
Cada ser humano se considera importante. Existem bilhões de pessoas neste planeta, quantas irão se enlutar por nós? Conte-os por um momento. Seis ou oito, doze ou quinze, de todos esses bilhões? Essa ponderação pode nos mostrar que temos uma idéia muito exagerada da nossa própria importância. Quanto mais considerarmos isso de forma apropriada, mais fácil será a vida.
Querer ser alguém é perigoso. É como brincar com o fogo em que se coloca as mãos a todo instante, machucando o tempo todo. Ninguém irá jogar esse jogo de acordo com as nossas próprias regras. As pessoas que realmente conseguem ser alguém, como por exemplo os chefes de estado, invariavelmente precisam estar cercadas de fortes guarda-costas porque as suas vidas estão sempre ameaçadas. Ninguém gosta de admitir que outra pessoa é mais importante. Um dos maiores obstáculos à paz de espírito é o “alguém” que nós mesmos criamos.
No mundo em que vivemos, podemos encontrar pessoas, animais, a natureza e objetos feitos pelo homem. Dentro de tudo isso, se quisermos ter controle sobre alguma coisa, a única coisa sobre a qual poderemos exercer alguma influência é o nosso próprio coração e mente. Se realmente quisermos ser alguém, poderíamos tentar ser aquela pessoa rara, aquela que tem controle sobre o seu próprio coração e mente. Ser alguém assim não somente é muito raro, mas também traz consigo os mais benéficos resultados. Esse tipo de pessoa não cai na armadilha das impurezas. Embora as impurezas não estejam ainda desenraizadas, ela não irá cometer o erro de exibi-las e envolver-se com elas.
Há uma história sobre Ajaan Chah, um famoso mestre de meditação da região do Nordeste da Tailândia. Ele foi acusado de ter muita raiva. Ao que Ajaan Chah respondia: “Isso pode ser verdade, mas eu não faço uso dela.” Uma resposta como essa provém de um profundo entendimento da própria natureza, é por isso que uma resposta dessas nos impressiona tanto. É uma pessoa rara aquela que não permite ser contaminada por um pensamento, palavra ou ação. Essa pessoa é realmente alguém, e não precisa provar isso para ninguém mais, principalmente por isso ser bem óbvio. Em todo caso, esse tipo de pessoa não tem o desejo de provar nada. Existe apenas uma aspiração permanente, que é a própria paz de espírito.
Quando temos como prioridade a paz de espírito, tudo aquilo que vier à mente e que se manifestar como linguagem ou ação será direcionado para isso. Qualquer coisa que não crie a paz de espírito será descartada, no entanto não devemos confundir isso com estar sempre certo ou ter a última palavra. Os outros não precisam estar de acordo. A paz de espírito pertence a cada um e cada um tem que encontrá-la através dos seus próprios esforços. Ayya Khema
 Fonte: http://www.acessoaoinsight.net


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Um comentário:

Cris Tarcia disse...

Patricia lindo texto.É tão bom estar em Paz, alma fica leve, quando se inicia a caminhada em busca da espiritualidade, se conhecer, sentir Deus , tudo fica diferente, não precisamos de tanta coisa para ser feliz, hoje dou muito valor as pequenas coisas, estar junto as pessoas queridas, brincar com as minhas 4 cachorrinhas fofas, cuidar toda manhã do meu jardim, meditar, e aprender cada dia mais um pouco, o caminho é longo mais maravilhoso.

Beijos um final de semana iluminada

Namastê