10 de outubro de 2010

BIOGRAFIA DE RUMI



Mevlana      Jalaluddim     Rumi     nasceu    em   Balk,   antiga   Pérsia   e  atual   Afeganistão,     em setembro   de   1207.   Seu   pai,   Bahauddin   Walad,   foi   um   dos   maiores   eruditos   de   seu tempo, conhecido como Sultan Ulema, o Sultão dos Sábios e teve influência decisiva naformação de Rumi. Na iminência da invasão mongol, Bahauddim migrou ao longo de alguns anos com sua família. Durante essa peregrinação, Rumi - em sua infância e adolescência - presenciouo encontro de seu pai com grandes mestres do Sufismo, como Faraddudim Attar. Havia uma disputa entre os sultões e califas pela presença de seu Pai. Todos queriam construir Madrassas   (escolas)   para   acomodar   Bahauddin   e   sua   família,   e   manter   em suas   cidades   esta   grande   eminência.   Mas  foi   em   Konia,   na   antiga   Anatólia   e   atual Turquia, que Bahauddim e sua família se estabeleceram. Rumi passou por uma formação clássica que abrangia todas as áreas de conhecimento Islâmico. Ele estudou Gramática, Jurisprudência, Comentário Corânico, as tradições do Profeta,  Teologia,  Filosofia, Matemática,  Astronomia,  e  foi   introduzido  ao conhecimento e prática do caminho Sufi. Foi enviado por seu pai às melhores escolas e logo, passou a ser reconhecido pela profundidade e brilhantismo de sua compreensão.Com      a  morte    de   seu   pai,  Rumi     assumiu     a  sua  madrassa      aos   24   anos.   Ele   erareverenciado por todos seus discípulos, e a população em Konia o chamava de Mevlana(nosso mestre). Para   compreender   melhor   a   influência  de   Bahauddim   sobre   Rumi,   segue   abaixo   um trecho de seu livro, o Maarif:
“Se   Deus   diz   ‘Nós’,   significando   EU   SOU,   então   qualquer   pronome   que  eu  utilize   se   torna   supérfluo.   As   designações   caem   como   pétalas.   A   sabedoria vem   e   eu   sinto   tamanho   deleite   a   me   transbordar,   que   temo   perder   meus sentidos   frente   a   isto.   Eu   digo   a  mim   mesmo:   amante,   amado   e   os   outros caminhos do amor não são uma única coisa? Da   mesma   forma   com   os   atributos   Divinos   e   os   seres   humanos,   existe   a unidade no Amor. No coração não existe espaço para diferenciação, somente unidade   e   o   Amado.   Eu   desistiria   de   livros   e   posses,   das   minhas   virtudes   e reputação, tudo por um único momento dentro desta presença.”
Após   a   morte   de   Bahauddim,   seu   antigo   discípulo   Burhaneddin,   veio   a   Konia   paracompletar o treinamento de Rumi. E durante muitos anos, mesmo mantendo a madrassa
e   seu   papel   na   comunidade,      Rumi     devotou-se     a  Burhaneddin      e  já  demonstrava      o desenvolvimento do elemento que iria tornar-se central em sua vida, a compreensão dopapel   do   Mestre,   Amigo   e   companheiro   de   Jornada   como   reflexo   da   Perfeição   e   do Amor Divino. Após a morte de Burhaneddin, sentindo-se maduro, Mevlana assume integralmente seu papel   na  madrassa   como   Mestre,   e   sua   fama   e  renome   espalham-se   para   além   das fronteiras de Konia. E então surge Shamsuddim Tabriz, o homem que iria transformar Mevalana Jalaluddin Rumi   no   mestre   que   renovou   o   caminho   místico   e   influenciou   outros   professores   e escolas além das fronteiras do Sufismo ou do Islã. Shams continua sendo uma figura enigmática,   a   quem   muitos   atribuem   diversas  origens   e   lendas.   Alguns   o   associam   à tradição Ismaelita e sua forte influência Persa, outros aos Malamati, grupo Sufi que foi chamado de Povo da Culpa por seu comportamento pouco. Mas isto é apenas conjectura, pois naquela  época, o Sufismo ainda apresentava muita vivacidade      e  liberdade   e  ainda   não   havia    sido  formatado     em   escolas,   ordens    ou linhagens,   fenômeno   que   demorou   um   século   para  acontecer.   Os   mestres   e   dervixes peregrinavam   pelas   cidades   mesclando   conhecimentos   e   interagindo   de   forma   mais livre.   As  Madrassas      e  outras   instalações    serviam-lhes     de  acomodação,      mesmo     se fossem dirigidas por outros mestres. Por causa dessa mescla tornou-se possível o resgate das tradições antigas e o florescimento de um conhecimento novo.
Na época de Rumi o caminho Sufi era dividido basicamente em duas linhas. A primeira,
chamada   de   caminho   dos   sóbrios,   com   origem   nos   primeiros   Sufis   de   Bagdá,   que
prezava     o  caminho    do   conhecimento      e  auto-controle    e  tentava   manter-se    em   bonstermos   com  a   ortodoxia.   Este   caminho   está  geralmente associado ao nome do grandemestre Junayd, e tem em figuras como Al Gazalli um exemplo posterior. O   outro   caminho,   conhecido   como   caminho   dos  “Loucos   de   Deus”,   ou   bêbados,   está associado aos grupos de Basra e ao nome de Bayazid Bistami, e tem em Al-Hallaj, que foi sentenciado à morte, um expoente posterior. Rumi já havia percorrido o caminho dos sóbrios e vinha vivendo de acordo com seus preceitos.   Porém,   a   partir   de   seu   encontro   com   Shams,   ele   descobre   a   dimensão   do Amor, um estado tão celebrado pelos “Loucos de Deus”. Mas é importante ter em mente que Rumi e Shams não devem ser associados com um ou outro destes caminhos. Shams era um sufi solitário e selvagem, que desdenhava da incompletude daqueles que se aprisionavam a qualquer dos dois caminhos. Um mestre, para ser digno desse título, deveria aniquilar-se na verdade e queimar suas concepções a respeito do caminho místico. Shams, que em persa significa Sol, buscava um companheiro que compreendesse seu ardor, e se transformasse ele também, em fogo. E para que Rumi pudesse atingir sua plenitude,   ele   precisava   queimar,   tornar-se  um   sol.   É   o   próprio   quem   Rumi   diz:   “Eu estava cru, e quando encontrei Shams fui cozido e me consumi”.
Mevlana, como no trecho do Maarif citado acima, abandonou os livros, o estudo, seus discípulos e reputação para mergulhar na presença de Shams.
É nesta época que Rumi é introduzido aos Giros e às cerimônias de Zikr, e de sua madrassa começa a transbordar a música e poesia. Mas da mesma forma com que surgiu, Shams some repentinamente, deixando Rumi ser consumido   no   fogo   do   Amor   e   da   Saudade   que   ele   o   havia   apresentado   e   que   sua separação abrasava. É de seu desespero que brotam suas poesias, que lamentam a saudade e a separação do Amigo que havia se tornado o espelho para sua alma, e em cujos olhos ele contemplava o Amor que buscava.
Rumi enviou discípulos e o próprio filho em busca de Shams, apelando por sua volta. E
quando   seu   filho   retorna   com   Shams,   novamente   eles   mergulham   em   seus   mistérios,transformando   um   ao   outro.   Mestre   e   discípulo,   amante,   amado   e   amigo,   todos   oslimites se consomem na plenitude da Presença divina. A morte de Shams também está envolta em mistérios e alguns autores sugerem que ele tenha    sido  assassinato    por  discípulos   invejosos.   Depois    da  morte   de  Shams,    Rumi mergulha na saudade novamente e se deixa consumir por inteiro. Mas desta vez emerge pleno na compreensão de que a separação é somente um véu, imposto pelo próprio ser humano   que   insiste   em   perpetuar   sua   cegueira   e   ignorância.   Ele   vê   que   a   luz   que contemplava em Shams era a Luz da Presença Divina em si, e também a Luz de sua própria   Essência.   Nesta   transformação,   Mevlana   pode   contemplar   a   própria   realidade como expressão da unidade, que revela eternamente a beleza e perfeição divinas. É deste processo que nasce toda sua arte. Nasce também o caminho que ele incita o ser humano a percorrer, composto da busca pela compreensão da potencialidade humana e das amarras que o aprisionam aos níveis mais baixos da expressão do seu eu. Esta é a parte crucial de seu legado, que muitas vezes é ignorado devido à apreciação meramente poética e superficial de seu ensinamento.
Mas   se   Mevlana   acusa   com   rigor   e   indignação,   também   instrui   e   orienta.   Ele   traz   a recordação da real dimensão pessoal e também de sua total potencialidade. Ele agita as
almas     a  romperem     os  grilhões   que   as  aprisionam,    abrasando     os  corações    com    arecordação do verdadeiro amado. Rumi     penetra    na  taverna    dos  amantes     compartilhando      o  vinho   do   amor    divino, declarando as belezas e perfeição do Amado. Mas esta dimensão não deve ser associada com os êxtases que levam à perda de consciência, ou à dimensão dos “loucos de Deus”, que   tanto   atiçam  as   fantasias   dos   aspirantes nessa   jornada.   Na   presença   de   Deus   esta embriaguês nada mais é que a sobriedade última da contemplação de Sua Face. Por isso, Rumi declara ser necessária maturidade para trilhar o caminho do Amor, assim como para aprender os segredos do Giro. Pois mesmo ele, só foi iniciado nestes mistérios após longos anos de treinamento e transformações. Para   se   aproximar   de   seu   ensinamento   é  necessário   penetrar   no   real   significado   do caminho que ele apresenta. Mas, o real significado deve ser buscado muito além de uma apreciação superficial. Ibn Arabi, um Sufi reconhecido como um dos maiores místicos da História e cujo enteado e discípulo, Sadruddin Konevi, foi amigo de Rumi, diz: “O místico   não   pode   indicar   sua   dimensão   a  outros   homens;   ele   pode   apenas   indicá-la simbolicamente para aqueles que começaram a experimentá-la por si próprios”. Esta trajetória não se limita a leituras e aquisição de conhecimento, seja intelectual ou poético.   É   necessário   que   haja   uma   transformação   que   nasce   a   partir   do   esforço   em mudar a si mesmo e desenvolver as suas potencialidades latentes. A morte de Mevlana aconteceu em 17 de Dezembro de 1273, e segundo as descrições “transportaram seu corpo através da cidade, o povo e os nobres descobriram a cabeça, mulheres, homens e crianças assistiram ao seu enterro. Estavam presentes membros e discípulos de comunidades e nações distintas - cristãos, judeus, turcos, árabes e gregos - cada qual com seu livro sagrado. Leitores do Corão liam belos versículos, os sacerdotes rezavam as preces da ressurreição com voz melodiosa, grupos de músicos recitavam e cantavam versos e canções compostos por Mevlana.” Mas para Mevlana a morte é o dia do retorno ao Amado, e deveria ser celebrada como o casamento   da   alma   com  Ele.   Em  suas   próprias   palavras:   “Prazerosos,   alegres,   ébrios, aplaudamos o encontro final com o Amado”. Além      do   Mathnavi,     sua   maior   obra,   ele   deixou    poesias    que   foram    copiladas posteriormente, sendo a mais famosa, o Divan. Rumi também escreveu o Fihi-ma-Fihi que    é   uma    compilação      de   aulas   e  ensinamentos      sobre    diversos    temas    dirigidos diretamente a seus discípulos.
O    impacto    de   sua  obra   exerceu    transcendeu     os   limites   do  Sufismo     e  do  Islão.   A universalidade e humanismo de suas idéias e posturas foram responsáveis por reunir à sua volta discípulos de todas as religiões e tradições. Após sua morte, seu exemplo e conhecimentos foram perpetuados, influenciando não apenas todos os grandes místicos da história, mas artistas, filósofos e pensadores. O    que   distingue    sua  poesia    e  idéias,  bem   como     sua   trajetória  pessoal,    é  a  forma apaixonada       com   que   buscou,    nas   expressões   da    Beleza    e  do   Amor,    os  elementos intrínsecos da relação do homem com o Criador e com a própria criação. Rumi busca esta Beleza na música, no Giro dervixe, na poesia e em toda forma de arte, mas principalmente na própria vida. Mevlana   é   o   poeta   do   Amor,   mas   de   uma   forma   de   amor   que   não   está   baseado   em fantasias   e   ilusões,   mas   na   luta   desesperada   e   apaixonada   da   alma   em   encontrar   a Verdade. E nessa luta é possível atingir a compreensão de que tudo o que separa a alma de   seu   objetivo   é   a   própria   incapacidade  do   ser   humano   em   atingir   sua   plenitude. Somente   após   remover   os   véus   causados   pela   própria   cegueira   é   que   será   possível penetrar   nesta   saudade   e   amor,   que   faz   girar   o   universo,   eternamente   inebriado   pela beleza e perfeição.
Fonte: http://www.imagomundi.com.br/espiritualidade.htm

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