25 de outubro de 2010

O AMOR



De  todas as qualidades, o Amor é a mais  importante, pois sendo bastante forte um homem, obriga-lhe a aquisição de todas as outras que, sem ele, não seriam suficientes. Freqüentemente é expresso como um intenso desejo de se libertar da roda dos nascimentos e mortes e de se unir com Deus. Entendê-lo, porém, deste modo, denota egoísmo e alcança apenas uma parte de sua significação. Não é tanto o desejo, como a vontade, a resolução, a determinação. Para produzir seus resultados, essa resolução deve encher de tal modo a tua natureza inteira, que não deixe lugar para qualquer outro sentimento. É, na verdade, a vontade de seres uno com Deus, não para escapares à fadiga e ao  sofrimento, mas  para  que, pelo  teu  profundo  amor por Ele possas  agir com Ele. E porque Ele é Amor, tu, se te quiseres unificar com Ele, deves encher-te de profundo desinteresse e amor.Na vida diária isto implica duas coisas: em primeiro lugar, Ter o cuidado de não fazer mal a nenhum ser vivo; em segundo, vigiar as oportunidades de prestar auxílio. Primeiro, não fazer mal. Três pecados há que operam maior dano do que todos os outros no mundo – a maledicência, a crueldade e a superstição – por serem pecados contra o amor. Contra esses três pecados, o homem que quiser encher o seu coração do amor de Deus deve estar vigilante, incessantemente.
A maledicência  - Começa com  um mau pensamento e este, em si mesmo, já é um crime, pois que, em tudo e em todos, existe o bem; em tudo e em todos o mal existe. Podemos reforçar qualquer deles pelo pensamento e, deste modo, ajudar ou embaraçar a evolução; podemos fazer a vontade do Logos ou resistir-lhe. Se pensares no mal que existe em outrem, cometes ao mesmo tempo três ações más:
1. Enches  teu ambiente de maus em vez de bons pensamentos, aumentando assim a tristeza do mundo;
2. Se nesse homem existir o mal que supões, o fortificas e o alimentas e, assim, tornas pior o teu irmão, em vez de o melhorar. Porém, geralmente o mal nele não existe, sendo apenas um produto da  tua  fantasia; e então o  teu pensamento  tentará o  teu irmão à prática do mal, pois que, se ele não for ainda perfeito, poderás torná-lo tal qual o imaginaste;
3. Saturas a tua mente de maus em vez de bons pensamentos; embaraças, assim, o teu próprio  crescimento,  tornando-te  aos  olhos dos  que  podem ver um objeto  feio  e penoso em vez de belo e atraente. Não contente de ter feito todo este mal a si próprio e à sua vítima, o maledicente tenta,  com  todas  as  suas  forças,  fazer  com  que os  outros  participem  do  seu  crime. Prontamente conta a perversa história, na esperança de que o acreditem; e, então, juntam-se todos a enviar maus pensamentos ao pobre paciente. E isto repete-se dia a dia e é feito, não por um homem, mas por milhares. Começas a ver quão terrível é este
pecado? Deves, por completo, evitá-lo. Nunca fales de ninguém; recusa ouvir o mal que te disserem dos outros e suavemente observa: Talvez isso não seja verdade e, se o for, é mais caritativo não falarmos nisso.
A crueldade – Quanto à crueldade, ela pode ser de duas espécies: intencional e não  intencional. A crueldade  intencional consiste em causar dano a um ser vivo, de ânimo deliberado; este é o maior de todos os pecados – próprios antes de um demônio do que de um homem. Dirás que nenhum homem cometeria tal crime; porém, os homens o cometeram muitas vezes e o cometem, ainda, diariamente. Praticaram-no os
inquisidores; muita gente religiosa o praticou em nome da sua religião. Os que dissecam seres vivos o praticam; muitos professores o praticam habitualmente. Toda essa gente procura desculpar a sua brutalidade dizendo que é o costume; um crime, porém, não deixa de o ser porque muita gente o comete. O karma não leva em conta o costume e o karma da crueldade é, de todos, o mais terrível. Na Índia, pelo menos, não há desculpa para tais hábitos, pois o dever de não fazer mal é de todos bem conhecido. A  sorte  reservada ao  cruel incide  também  sobre  todos aqueles que  intencionalmente matam criaturas de Deus sob pretexto de desportos. Sei que não farias estas coisas; e, por amor de Deus, quando a oportunidade se oferecer,  falarás  abertamente contra  elas. Porém,  existe  a crueldade  na  palavra,  da mesma forma que nos atos, e um homem que diz algo com a intenção de ferir a outrem é passível desse crime. Isto também não farás; porém, às vezes, uma palavra impensada faz tanto mal como se fosse malévola. (...)
A superstição – A superstição é outro grande mal, que tem causado muitas e terríveis crueldades. O homem que é seu escravo desdenha aqueles que são mais sábios e tenta fazê-los agir do mesmo modo. Pensa nos horrendos massacres produzidos pela superstição que aconselha o sacrifício de animais e pelo ainda mais cruel preconceitode que o homem necessita de  carne para alimentar-se. Pensa nos maus  tratos que a
superstição tem criado para as classes oprimidas da nossa Índia bem amada e verifica por aí quanto esta má qualidade pode originar de covarde crueldade, mesmo entre aqueles que conhecem o dever de serem fraternais. Muitos crimes os homens cometeram em nome do Deus de Amor, movidos pelo pesadelo da superstição; cuida, pois,muito para que dela não reste em ti o menos vestígio. Esses três grandes crimes deves evitar, pois são fatais a todo o progresso, por serem pecados contra o amor. Não basta, porém, refrear o mal; é preciso ser ativo no bem. Deves encher-te tanto do intenso desejo do serviço, que estejas sempre vigilante para prestá-lo em  torno de ti – não somente aos homens, como também às plantas e aos animais. Deves prestá-lo nas pequenas coisas, cada dia, a fim de que o hábito se forme e não percas as raras oportunidades em que grandes coisas se apresentam para ser feitas. Pois que, se  anseias unificar-te  com Deus, não  é por amor de  ti próprio, mas a fim de que possas ser um canal através do qual o Seu amor flua sobre os homens, teus irmãos. Aquele que está na Senda não existe para si mesmo, mas para os outros; esquece a si próprio para poder servi-los. Ele é como uma pena na mão de Deus, através da qual o Seu pensamento flui e pode encontrar neste mundo uma expressão que, sem ela (a pena) não poderia Ter. É, ao mesmo tempo, um feixe de fogo vivo radiando sobre o mundo o Amor Divino que lhe enche o coração. A sabedoria que torna capaz de ajudar, a vontade que dirige a sabedoria, o amor que inspira a vontade – tais são as qualidades requeridas. Vontade Sabedoria e Amor são os  três aspectos do Logos; e  tu, que desejas alistar-te ao Seu serviço, deves expressar esses três aspectos no mundo.
Krishnamurti, in
Aos pés do mestre

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