20 de outubro de 2010

O GANHO DA PERDA



“Se alguém faz um processo para tomar de você a túnica, deixe também o manto!”
Jesus segundo Mateus, Cap. 5, Vers. 40
As perdas e os obstáculos se reproduzem a partir de idéias gananciosas e pensamentos egoísticos ou possessivos. A vida mais harmoniosa se constrói a partir de idéias que pensam na felicidade do outro, incluindo a compreensão diante de quem lhe assalta. Isso é poder e representa ganho. Uma pessoa não pode “ter” poder; o “ter” é transitório... É uma coisa que “dá e passa”. Isso exige que a consciência se torne mais receptiva e compreensiva: conviver melhor com diferenças, paradoxos, perdas e ganhos. Pequenos gestos positivos no cotidiano, sempre repetidos, podem conter maior riqueza do que aquela que possui o bilionário. Em parte, isso depende do foco na vida: para onde a pessoa está mirando? É possível contemplar o lobo com um sorriso no olhar? É possível; isso é poder e ganho, quando flui do mundo interno honestamente.
E há dúvida sobre o que é correto? É preciso refletir nas atitudes e suas conseqüências. Quanto tempo é possível passar sem falar para alguém: – Pode levar, eu lhe dou. – Vá com Deus. – Muito bem, parabéns. – Amo você. – Isso não é problema, vamos resolver juntos? Produzir conseqüências felizes é agir com essas atitudes e deixar alguém mais confiante e sereno, por isso nunca deixe um ladrão nervoso.
Há dúvida entre o falso e o verdadeiro otimismo? O falso otimismo torna a pessoa fugitiva de si mesma diante das asperezas da existência. Querer uma existência cor-de-rosa, neste mundo, não é otimismo; é alienação. O verdadeiro otimismo se levanta diante das tragédias, mas também diante das picuinhas diárias; reconstrói todos os dias a harmonia, que é desorganizada pelo caos, naturalmente. Ter um relacionamento maduro com as perdas é estar preparado e saber que os problemas aparecem com disfarces diferentes. Se não houver aprendizado com as perdas, a mente se torna obtusa e o ego ainda mais ganancioso. Como o sábio vê uma perda ou um desafio? Como um aviso e também como uma mensagem que decifra seus códigos interiores, sua estatura e o seu grau de maturidade espiritual. Ele vê como Jesus ensinou: se lhe tomarem a túnica, entregue também o manto, com um gesto de entrega serena, com aquele olhar de quem nunca se afasta da Divindade interior, porque é ela quem está por trás do ladrão. Não diga: – Hoje o ladrão me roubou. Tente pensar de forma diferente: – Hoje, a Divindade tomou a forma de um marginal e levou meus objetos. Na verdade, as perdas nada têm nada a ver com as exterioridades, mas com a lei de atração do mundo interior. O indivíduo é o único responsável por aquilo que atrai. Uma pessoa com a sua energia nervosa desorganizada, por mais boazinha que seja, atrai situações de prejuízo e perigo, como um alerta, uma negociação, uma troca... Para refletir. Um exemplo que, geralmente, não se conta como perda: o desânimo é um inimigo poderoso e atrai prejuízos. O desânimo fica escondido no sentimento, minando as forças e segredando: nada tem graça, nada vale a pena; não existe razão para se levantar ao acordar pela manhã. Quem tem um inimigo desses, sente-se morto em vida, empurrado pela chantagem das necessidades. Não percebe que esta é uma escolha? É para mudar radicalmente e ingressar na lei do movimento, mesmo empurrado. Depois, esse inimigo não terá mais onde se esconder. Alternar autoconhecimento, lei do movimento e meditação. Mas nunca tentar convencer a ninguém sobre aquelas idéias que você não respirou, digeriu, bebeu, dormiu, acordou, transpirou e viveu. É feio fazer de conta e isso não é ganho. O indivíduo se considera feliz com as suas convicções? Como um crente choroso, desanimado, limitado e infeliz pode falar de Jesus e do reino dos céus? Um infeliz só convence a outro ignorante. Refletir: a felicidade e a infelicidade são as duas forças que mais unem ou atraem as pessoas. Se escolher a felicidade, nunca se iludir. A felicidade só acontece ao projetar e praticar mais a felicidade dos outros. Isso é ganho e não significa se anular. Significa participar ativamente na construção da felicidade de outros. É salutar refletir na missão dos vegetais, no sustento que eles dão e como eles transformam gás carbônico em oxigênio para todos. Há quem faça mais pela humanidade do que o reino vegetal? Fazer pelo outro é ganho. Por isso, nunca é bom ter pavor de perdas, de assaltos, de acidentes, de perder um ente querido, ou a própria vida na carne. Há muito mais vida além da carne. Dever-se-ia ter pavor de não aprender com as perdas. A encarnação neste mundo é para viver de impermanência: harmonia e caos.
Não tenha medo de ir à falência, de perder o prestígio e recomeçar do zero. Aconteça o que acontecer, nunca deixar de enxergar essa realidade: todos estão de passagem por esse mundo. Somente o viajante é eterno. E já que o vivente está de passagem, deve olhar e apreciar essa estranha experiência: a impermanência (harmonia e caos), como a condição que o torna apto a continuar viajando pelo cosmos. Essa disposição interna o torna também mais saudável, porque estará fazendo pessoas mais felizes.
Soltar para agarrar: soltar esse perdedor que vive preocupado com as perdas, para agarrar o vencedor que deixa fluir o que a vida quer lhe tirar. O que é maior que a vida? Nada. Restringir aqui para conquistar ali: buscar deliberadamente a restrição, a economia do planeta, aprendendo a perder para ganhar. Há uma só forma: o desapego, entregar para receber e confiar que toda perda é uma lição a aprender. Quem luta para ganhar todas as questões, no final apresenta o seu relatório de perdas. É ganância. O ganancioso se percebe como justo, mas não vê que os outros também têm direitos diante da vida, mesmo que administrem esses direitos de modo torto. O ganancioso não tem leveza em seu julgamento, portanto, a sua vida é pesada, porque a sua visão é sempre esta: querem tirar o que é “meu”. Coisa alguma é “sua” neste mundo; é tudo um empréstimo passageiro. Como se defende o que é “seu”? Com leveza, fluidez, compreensão, amor e doação. Há que perceber: a vida negocia. O que lhe tiraram? Aquilo que lhe tiraram não representava seus pertences eternos, porque os bens espirituais são intocáveis. O único que pode roubar o bem mais precioso – a paz interior – é você mesmo. Não perca a sua paz, por nada deste mundo, por mais que tenham lhe atingido. Escolha não ser ladrão de si mesmo. A melhor forma de tratar o egoísmo é mudar o comportamento diante de um marginal ou daquela pessoa que detesta. Em geral, os desafetos expõem as vísceras do que existe de pior no ego: ganância, turbulência, egoísmo, possessividade e julgamentos ferinos ou equivocados. Quando perder, ganhe uma lição e conquiste o seu ser. Para não perder, seja mais compreensivo ou dê alguma coisa para alguém, sem pensar no retorno. Dê, não só objetos, mas atenção essencial, antes que a Divindade lhe tire de modo inesperado o que você conquistou. Quem é essa Divindade? É o seu próprio Eu Real, o seu mestre interior, aquele que apronta as lições para auferir aprendizado no mundo físico. Quando você aprender a perder, só terá a ganhar. Não é o dinheiro que traz a segurança. É a segurança interior que atrai o bem, o bom e o belo.
M. Nilsa Alarcon e J. C. Alarcon
http://somostodosum.ig.com.br/clube/artigos.asp?id=1906

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