28 de outubro de 2010

A VIDA NÃO É APENAS SOFRIMENTO



(...) A primeira nobre verdade quer dizer que o apego é sofrimento. É devido ao apego que a dor física se torna uma dor mental. É devido ao apego que o envelhecimento, enfermidade e morte causam angústia mental. Como nos apegamos? Os textos indicam quatro formas: o apego ao desejo sensual, o apego a idéias, o apego a preceitos e rituais e o apego à idéia da existência de um eu. É raro que na mente comum exista algum momento sem alguma forma de apego. Mesmo quando abandonamos uma forma particular de apego é porque em geral ela está atrapalhando alguma outra forma. Podemos abandonar uma idéia puritana porque ela interfere com o prazer sensual; ou um prazer sensual porque ele conflita com uma idéia acerca do que devemos fazer para ter boa saúde. A nossa idéia sobre quem somos pode se expandir e contrair dependendo de qual das nossas muitas noções de "eu" está sentindo mais dor: ela pode se expandir para uma noção cósmica de unidade com todos os seres, quando nos sentimos confinados pelas limitações do nosso pequeno complexo de mente e corpo; ela pode contrair-se numa pequena concha quando sentimos a dor que surge da identificação com um cosmo repleto de crueldade, negligência e estupidez. E então chegamos ao ponto em que a insignificância do nosso eu finito se torna novamente opressiva.
Portanto, descobrimos que a nossa mente salta de apego em apego tal como uma semente de mostarda em uma frigideira quente. Quando nos damos conta disso, naturalmente procuramos uma forma de escapar. E é nesse ponto que se torna tão importante que a primeira nobre verdade não diga que "a vida é sofrimento", pois, se a vida fosse sofrimento, onde poderíamos encontrar um fim para o sofrimento? Não nos restaria nada além de morte e aniquilação. Mas, quando na verdade o apego é o sofrimento, nós simplesmente temos que olhar para ver com clareza onde está o apego e aprender a não nos apegarmos.
É nesse ponto que nos deparamos com a grande habilidade do Buda como estrategista: Ele nos diz que tomemos os apegos que devemos abandonar e que os transformemos no caminho para o seu abandono. Necessitaremos de uma certa dose de prazer sensual - em termos de comida, roupas e moradia adequadas - para encontrarmos a força para superar o prazer sensual. Necessitaremos do Entendimento Correto para superar o apego a idéias, e das regras dos cinco preceitos éticos e da prática da meditação para superar o apego a preceitos e rituais. Sustentando tudo isso, precisaremos de uma forte noção de auto-responsabilidade para superar o apego à idéia da existência de um eu.
Assim, nós começamos a trilhar o caminho para dar fim ao sofrimento sem tentar derrubar nossos apegos imediatamente, mas aprendendo a nos apegar mais estrategicamente. Em outras palavras, começamos do ponto onde nos encontramos e utilizamos da melhor maneira possível os hábitos que já temos. Progredimos ao longo do caminho à medida que encontramos mais e mais coisas de melhor qualidade às quais possamos nos apegar e maneiras mais hábeis de nos apegarmos; da mesma maneira que você usa uma escada para subir no telhado: agarra um degrau mais alto para poder soltar o degrau mais baixo e depois agarra um outro degrau ainda mais alto. À medida que os degraus se distanciam do chão, você perceberá que a mente ficará cada vez mais clara e poderá ver com precisão onde estão os seus apegos. Ela obterá uma noção mais evidente sobre qual parte daquilo que é experimentado pertence a qual nobre verdade e o que deve ser feito em relação a ela: as partes que são sofrimento devem ser compreendidas; as partes que causam o sofrimento - desejo e ignorância - devem ser abandonadas; as partes que constituem o caminho para o fim do sofrimento devem ser desenvolvidas; e as partes que pertencem ao fim do sofrimento devem ser realizadas. Isso ajudará você a subir cada vez mais alto na escada, até chegar ao telhado com segurança. E nesse momento, você poderá finalmente se soltar da escada e libertar-se completamente.
Potanto, a verdadeira questão que enfrentamos não é a pergunta de Deus, julgando a sua habilidade em criar a vida no mundo. É a nossa questão: que tão habilidosos somos em lidar com as vicissitudes da vida? Estamos nos apegando de uma forma que apenas serve para dar continuidade ao ciclo de sofrimento ou estamos aprendendo a nos apegar de maneira a reduzir o sofrimento para que, no final das contas, possamos nos emancipar e não precisemos mais nos apegar . Se lidarmos com a vida armados com as quatro nobres verdades, compreendendo que a vida contém ambos, o sofrimento e o fim do sofrimento, haverá esperança: esperança de que seremos capazes de identificar quais partes da vida pertencem a qual verdade; esperança de que algum dia, nesta vida,
Ajaan Thanissaro
http://www.acessoaoinsight.net

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