3 de novembro de 2010

A PELE TEM OLHOS



O tato é o sentido mais antigo e o mais urgente. Se um tigre está apoiando suas patas sobre os nossos ombros, necessitamos sabê-lo imediatamente. Qualquer contato ou mudança num contato, por exemplo: um aumento de pressão, ativa no cérebro uma série de atividades. Quando tocamos algo deliberadamente (nosso namorado, o pára-choque de um carro novo, a língua de um animal), colocamos em movimento nossa completa rede de receptores táteis, acendendo-os por exposições de uma sensação e logo por uma outra. O cérebro lê os acesos e os apagados como num código Morse e registra suave, áspero, frio. Os receptores táteis podem ficar em branco simplesmente pelo tédio.
Quando colocamos um suéter pesada somos agudamente sensíveis à sua textura, peso e sensação contra a pele, mas em pouco tempo já a ignoramos completamente. Uma pressão constante se registra no início e ativa os receptores táteis e depois os receptores param de funcionar. Por isso usar lã, ou um relógio de pulso, ou um colar, não nos incomoda demasiados, a não ser que a temperatura aumente ou o colar arrebente. Quando acontece qualquer mudança, os receptores lançam um sinal e subitamente nós tomamos consciência. As pesquisas sugerem que, mesmo havendo quatro tipos principais de receptores, há muitos outros dentro de um amplo espectro de respostas. Além do mais, nossa pauta de sensações através do tato é mais completa que um mero frio, calor, dor e pressão. Muitos receptores táteis se combinam para produzir o que chamamos "uma pontada". Pensemos em todas as variedades de dor, irritação; todas as texturas da carícia; todas as cosquinhas, golpes, beliscões, arranhões, palmadas, beijos, etc. Um arrepio numa piscina gelada num dia de verão, quando a temperatura do ar e do corpo são iguais. A sensação de uma abelha pousada na perna. Buscar com os olhos vendados um pote de geléia como parte de uma brincadeira num clube infantil. Tirar o pé da lama. A sensação da areia molhada entre os dedos. Uma mordidela num creme de uma torta. O prazer quase orgástico, mescla de estremecimento, dor e alívio que significa coçar as costas. Algumas formas de tato nos irritam e deleitam simultaneamente. A umidade pode ser uma mescla de temperatura e ansiedade, por exemplo. Mas quando perdemos contato (o dentista nos anestesia; ou um braço fica dormente por falta de irrigação sanguínea), nos sentimos estranhos e alheios.
Como o tem demonstrado aquelas pessoas que são surdas e cegas, é quase possível arranjarem-se só com o tato, mas sem o tato o mundo se desfoca irremediavelmente, e pode-se perder uma perna sem sabê-lo, queimar a mão sem sentir ou perder a consciência de onde se termina o corpo e começa o mundo.
O tato nos "preenche a memória como uma chave detalhada de nossa própria forma".
Um espelho não significaria nada sem o tato. Sempre estamos tomando-nos as medidas de modo inconsciente: passamos uma mão pelo antebraço, vendo se o aro que forma o polegar e o indicador pode circundar o pulso, ou se podemos tocar a ponta do nariz com a língua, ou ainda, apalpando a longitude da perna quando nos alisamos do tornozelo à coxa ao colocarmos uma meia de náilon, ou retorcendo nervosamente uma mecha de cabelo. Mas, sobretudo, o tato nos ensina que a vida tem profundidade e contorno: torna tridimensional nosso sentido do mundo e de nós mesmos.
Sem esse intrincado sentimento da vida, não haveria artistas, cuja habilidade está em fazer mapas sensoriais e emocionais, nem cirurgiões, que introduzem os seus dedos dentro do corpo.

O TATO CURATIVO
O tato é um curador tão poderoso, que acudimos a quem o exerce profissionalmente (médicos, massagistas, cabeleleiros, professores de dança, pedicures, manicures e prostitutas) e freqüentamos empórios do tato (discotecas, gafieiras, etc).
Um médico não pode ajudar muito quando se tem uma alergia, um resfriado, ou algum mal menor, mas de todo modo vamos vê-lo para que nos toque, ausculte, acaricie, inspecione, manipule. O mais óbvio dos usos profissionais do tato é a massagem, destinada a estimular a circulação, dilatar os vasos sanguíneos, relaxar os músculos tensos e limpar de toxinas o corpo mediante o fluxo da linfa.
A popular massagem "sueca" propõe toques amplos e em arco, sempre na direção do coração. O shiatsu japonês é uma espécie de acupuntura sem agulhas, usando o dedo (shi) para causar pressão (atsu). O corpo é dividido de acordo com meridianos, segundo os fluxos de energia ou força vital, e a massagem libera as passagens.
Na massagem "neo-reichiana", que às vezes se usa em conjunção com a psicoterapia, os toques se fazem do coração para fora, com a finalidade de expandir a energia nervosa. A "reflexologia" se concentra nos pés, mas, como o shiatsu, também utiliza a pressão de pontos na pele, que aqui representam distintos órgãos. Supõe-se que ao massagear estes pontos ajudamos a funcionar melhor os órgãos correspondentes. No "rolfing" a massagem se transforma em uma manipulação violenta, às vezes dolorosa. Ainda que haja muitas técnicas diferentes de massagem, algumas escolas formais e muita teorização sobre o tema, os estudos têm mostrado que o mero contato carinhoso, independente de estilo, pode melhorar a saúde.
(...) Pesemos o fato que somos criaturas territoriais que nos movemos pelo mundo como dentro de principados soberanos, o contato acalenta nossa alma, ainda que não o notemos. Provavelmente nos lembra a época, muito anterior à compromissos e trâmites bancários, em que nossa mãe nos acalentava e nos sentíamos seguros e amados. Nem sequer um contato que não notamos passa inadvertido para a mente subterrânea.
Diane Ackerman, in
História Natural dos Sentidos     

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2 comentários:

Cris Tarcia disse...

Patricia, que texto maravilhoso, podemos com as nossas mãos acalentar almas.
sabe adoro uma massagem

Beijos

angela disse...

La imagin preciosa,pie del nino/a,empesando andar en largo camino de la vida que puede tener escaleras para subir y sin bajar...
felicidades ,bonito.
saludos.