6 de novembro de 2010

PISANDO NO CHÃO



Acorda de manhã e percebe-se num estado de acabrunhamento incômodo, provavelmente depois de uma noite mal dormida e sem conseguir parar de pensar nas pendengas que virão durante o dia a sua frente. Ao primeiro sinal de contato consigo mesmo, encontra um estado de insatisfação presente. Quem sabe, marcado pelas desagradáveis sensações vividas em alguns pesadelos que cansaram a sua alma e aos quais está atribuindo, um tanto ou quanto confusamente, um sentido místico - culposo qualquer.
Solução?: "pisar no chão". Levantar "pianinho", sentar-se na cama com os pés no chão, bem no chão. Sentir que os pés estão ali, exatamente onde estão e que você estará, daqui a pouquinho, passando o peso do seu corpo para que eles dêem conta da sua condição de ser do reino dos "Duas - Pernas". Dê uma boa espreguiçada, a mais indolente possível, permita os bocejos. E aperte os pés contra o chão, faça-os acordar, convide-os a ganhar força e preparo para o dia que vem. Pode ser que uma pequena e refrescante sensação de sustentação percorra todo o seu corpo ao se levantar e daí então caminhe na direção do seu dia. Não há outro jeito.
O dia prossegue e, ainda em casa, topa de cara com aquele membro de sua família com quem você está tendo um desentendimento, um momento mais mal - enjambrado. Talvez você ainda não tenha encontrado um jeito de dizer a ele sobre os ressentimentos importantes que ficaram em relação àqueles pedidos que você fez e foram por ele negados. Ou, quem sabe, você continua intimidado em reconhecer diante dele que você "pisou na bola", e coisa e tal...
"Pisar no chão". Respirar fundo algumas vezes, dar uns suspiros sonoros, e nem se importar tanto se o seu parceiro de mal-estar venha a perceber o seu sonoro respirar. Pode ser que esteja começando nesse momento, mesmo que indiretamente, um diálogo, ainda sem palavras, mas um pouco mais esvaziado, daquelas conhecidas mumunhas hostis. Um dado novo, que lhe permita não se repetir tão automaticamente, um pouco mais de disposição ao encontro.
E você sai de casa, a caminho do seu trabalho, para a necessária experiência de outros espaços de convivência e realização. Pode ser que algo agradável aconteça, fique atento. Pode haver um encontro inesperado com alguém que não vê há muito tempo e que um bom papo, mesmo que rapidinho, se dê. Pode acabar cruzando com alguém que estimule sua sensualidade espontânea. Pode ser que a sua atenção seja chamada para começar a ler o jornal matutino a partir de uma seção que realmente o preencha de informações úteis e, quem sabe, até promissoras. E um certo relaxamento aparece, bem-vindo relaxamento.
Pode parecer que não precisa, porém é fundamental "pisar no chão", endireitar a sua coluna, arrumar-se num bom prumo, tomar ar calmamente. Sem que ninguém repare, discretamente, mexer um pouco a sua língua dentro de boca, massagear suavemente os dentes, os palatos. Exercitar a possibilidade de sentir um pouco mais consistentemente o gosto bom de tais experiências inusitadas. Observar se você não acaba deixando desaparecer muito rápido as sensações prazerosas vividas. Mesmo que, de pequena intensidade, as sensações de prazer, se cultivadas, expandem em nós, potenciais de criatividade. E isso alimenta!
Chega a hora de trabalhar, de empreender uma tarefa; e no andar da carruagem pinta o desafio, o difícil, o árduo. Se você sofre de uma tendência a se cobrar excessivamente diante da sua própria responsabilidade em relação à realização, das duas uma: ou acaba paralisando-se, gerando mais decepção consigo mesmo e tentando dar conta do compromisso a qualquer custo, ou se esgarçam as suas forças de modo que o prazer de construir fica conturbado. Pode ser que careça de ímpeto de realizar e que, portanto, tenda a arrastar-se na concretização da sua meta, ou se exponha, em função disso, a críticas vindas de outros que o aborrecerá, certamente.
"Pisar no chão"? Porque não? Pisar e alargar um pouco mais o tórax, com o impulso da respiração. Se a região do peito tender a se minguar, estufar, encher de ar; se tender a endurecer, amaciar, esvaziar do ar. Nessa hora é bom lembrar que aí mora o coração. E falando nele, que tal, se possível, senti-lo batendo ritmicamente em sua morada? Acariciar-se, "como quem não quer nada". E dizer para ele, para si mesmo, aquilo que precisa ouvir. Coisas do gênero: "vou indo com calma, eu chego lá; ainda não posso confiar suficientemente nas minhas habilidades, estou sempre vivendo como se começasse do zero a cumprir tarefas, mesmo já sabendo que já construí bastante e que já fui reconhecido nos meus feitos"; ou talvez: "preciso acordar, estou precisando malhar um pouco mais; ou lembrar-se um pouco que "os tempos de bebê já passaram, agora são minhas mãos que me alimentam". Mas, em quaisquer das hipóteses, ser gentil consigo mesmo.
E finalmente, mas não por fim, você chega em casa tarde da noite; e não porque pôde ir a um cineminha depois da luta do dia, ou porque um encontro ou uma atividade de expansão da mente estava no programa. Está cansado, exausto, porque "ralou" o dia todo e mais um pouco. Mal pode sentir o seu próprio cansaço. Sensações anestesiadas, sobreviventes, o predispõem a se drogar de alguma maneira: comendo demais, bebendo demais, vendo televisão demais, tendo pesadelo demais, mesmo sabendo que amanhã estará meio arrependido... Ou então, se a "anestesia" caridosa não funcionou, esborracha-se na cama, ofendido de tanto cansaço. E daí em diante, dormir um tanto mal, indisposto para o descanso da noite, contrariado com o seu desempenho ou com o desenrolar da vida.
"Pisar firme no chão". É certo que um tempo já lhe foi roubado pelo desandar das coisas. Que tal demorar um pouco mais numa espécie de banho útil: tipo "chuveirada descarregadora" ou tipo "água na moringa"? Relaxar seus ombros pesados em função do seu dia, relaxar ativamente; usar as suas mãos, ou as de alguém disponível, para massageá-los; rodar devagar para frente e para trás; suspender até o pescoço. Mas cuidado com o pescoço: geralmente ele reage como se fosse um "bicho brabo", fica mais tenso. Vale, portanto, soltar também o pescoço, porém delicadamente. Pegar o ar e deixá-lo com a convicção que se tem ao tentar saciar a sede ou ao aliviar suas "necessidades".
E dar um tempo. Daqueles que se diz, simplesmente: um tempo pra mim. Uma leitura interessante, algumas faixas de um CD, um papo, um exercício de meditação. E... promover uma esperta reconciliação com seus desejos, de modo que não importem o tempo comum, a quantidade de espaço rotineiro, os malabarismos dos movimentos: importa o encontrar-se com o outro.
E/ou... permitir-se um sonho vivo, colorido ou em preto e branco, que lhe traga uma revelação fresca e curiosa para a sua vida.
E se hoje não der certo, "ninguém é de ferro", não se zangar consigo mesmo, há amanhã. E "pisar no chão" será a primeira medida.
Humbertho Oliveira (Médico, Psicoterapeuta Somático)
Fonte: http://www.corpomente.net/Artigos/Pisando%20no%20chao.htm 

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