15 de novembro de 2010

QUANDO A CRENÇA SE VESTE DE INTOLERÂNCIA



É consenso dizer que não existe excesso de fé. Ela não pode ser submetida a quantificações nem qualificações. Mas é certo dizer, também, que a leitura fundamentalista dos textos sagrados pode resultar em um perigoso excesso: a intolerância religiosa. "A atitude fundamentalista rejeita o pluralismo religioso. Ela parte do princípio de que o texto que a fundamenta contém toda a vontade de Deus e que, por isso, outras expressões religiosas são equivocadas e devem dessa maneira ser combatidas”, conceitua Wagner Lopes Sanchez, sociólogo e pesquisador da ciência da religião. “O fundamentalismo é perigoso porque tira a historicidade da Bíblia. Esquece-se de que ela foi produzida em certo momento da nossa história e, ainda, escrita por um grupo com interesses específicos, e traz simbologias típicas de uma determinada época”, explica Marcos Lobato Martins, professor de história na Universidade do Estado de Minas Gerais. A leitura saudável desse texto sagrado entende que nele estão escritos princípios morais, que devem ser interpretados e adaptados.
A questão é quando se leva o texto ao pé da letra, sem admitir que o mesmo senso moral estrutura também outras mitologias. Sem essa flexibilidade e generosidade para compreender a fé do outro, pode-se desembocar em desrespeito e falta de limite. “Seguramente, temos muitos testemunhos históricos dos horrores praticados em nome de Deus em defesa de determinadas idéias religiosas. Além disso, é especialmente intrigante a intolerância ter assumido formas tão violentas assim justamente na religião que sempre apregoou uma ética baseada no amor, no perdão e também na conciliação”, reflete Valério Guilherme Schaper, professor de teologia sistemática e ética da Faculdades EST, em São Leopoldo, RS.
Por outro lado, o ecumenismo desponta como uma atitude contemporânea e saudável em relação ao convívio das religiões. “De certa forma, o ecumenismo é a rejeição da intolerância religiosa nas fronteiras do cristianismo, mas que se deve abrir também para as demais religiões”, aponta Wagner Lopes Sanchez. O ecumenismo foi entendido como um movimento depois da Segunda Guerra, mas é uma esperança em relação ao diálogo entre os fiéis. O próximo passo é o macro ecumenismo, que se estende para outras religiões, traçando um caminho de paz em que a intolerância cede a vez e a compreensão ganha espaços.
Revista Bons Fluidos – Editora Abril - Maio 2008
Fonte: http://www.nenossolar.com.br

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