30 de janeiro de 2011

ALEGORIA



Houve uma vez um homem que chegou ao meio de sua vida. Ele decidiu que era hora de refletir sobre o seu valor e avaliar sua direção. Assim, deixando seus amigos, sua família e a maior parte de suas posses para trás, foi para os bosques onde poderia pensar sem ser perturbado. Quando entrou no bosque, ele não sabia se estava fazendo a coisa certa, mas sabia que tinha que fazê-lo. A princípio, a beleza do novo ambiente o encheu de admiração e espanto. Logo aprendeu a ouvir os sons da natureza e, enquanto as semanas se transformavam em meses, vagarosamente ele se viu mudando. De vem em quando sentia falta das pessoas que deixara, mas a grande beleza de seu novo ambiente o atraía mais para o mistério que procurava, e ele não podia voltar atrás. Ele aprendeu a tempo a ouvir seus próprios pensamentos. Podia ver sua mente nas árvores e sentir suas emoções nos arbustos. O perfeito equilíbrio da natureza que o cercava estava começando a se tornar ele mesmo. A luta que habitualmente travava dentro de si mesmo vagarosamente começava a desaparecer. A princípio ficou assustado, pois, embora não tivesse percebido, a agitação à qual sua mente estava acostumada tinha lhe feito companhia. Agora ela não existia mais e havia somente a grande tranqüilidade da natureza. Mais tempo se passou e ele começou a perceber que não podia mais classificar as pessoas a respeito de quem ele costumava ter opiniões. Começou a ver a falta de importância de classificar todas as pequenas coisas que costumavam afligi-lo. Agora ele tinha um problema diferente. Com uma mente lúcida, sem preocupações cansativas que sempre atormentaram seu espírito, o que deveria fazer? No passado, as vozes dos outros, com suas fortes opiniões, de algum modo o guiaram. Os efeitos das vidas de outras pessoas violaram tanto a sua própria vida que ele nunca realmente teve que se preocupar com a direção que ela deveria ter.  Após dois anos nos bosques, ele começou a imaginar se o mundo lá fora tinha mudado tanto. Ele pensou nas pessoas que tinha conhecido, imaginou como estariam agora. Então, descobriu uma coisa surpreendente a respeito da mudança que tinha se passado dentro dele. Tudo que tinha a fazer era pensar numa pessoa e, de algum modo, através de um curioso milagre, ele instantaneamente sabia como a pessoa estava agora. A princípio ele achou difícil de acreditar, mas, depois de um tempo, descobriu o que os bosques lhe tinham feito. Ele podia tocar uma folha e saber quando ia chover; de algum modo podia sentir a presença até mesmo do menor dos animais a centenas de metros de distância. E ele sempre estava certo. Alguma coisa o colocou em sintonia com a perfeita harmonia da natureza. O mais ligeiro abalo no equilíbrio ecológico, ao qual ele se acostumou, instantaneamente atrairia a sua atenção. Pela primeira vez em sua vida percebeu que era parte da criação de Deus. Ele tinha lido a esse respeito em livros. Secretamente tinha sonhado com isso, mas era diferente. Ele estava realmente participando. Ele se sentou e encostou-se no tronco de uma enorme sequóia para refletir. De algum modo, por caminhos que não compreendia, ele tinha obrigado a si mesmo a passar por anos de tortura emocional. Então, testou sua habilidade e sua vontade de sobreviver entre os elementos naturais que não lhe eram familiares. E, para seu espanto, lá estava ele, intacto, apesar de tudo. Passaria o resto de sua vida na floresta ou iria, antes que fosse tarde demais, encontrar pessoas, como fizera no passado? A pergunta desconcertou-o, pois sabia que nunca deveria contar a ninguém a respeito do que tinha descoberto. Sob certos aspectos ele temia que a força dos desejos das outras pessoas o levasse de volta a tudo o que tinha abandonado. Contudo, depois de dois anos nos bosques, ele estava se sentindo solitário. Não era o mesmo tipo de solidão que conhecera antes de sua viagem. Ele desejava os sons da natureza nas pessoas. Os longos meses que passou sozinho o tornaram calado. Ele gostaria de partilhar o que descobriu, mas também sabia que deveria preservá-lo para si mesmo. Ele se lembrou como antes parecia ser tão importante tentar reformar o mundo ou talvez redimi-lo de alguma destruição iminente, imprecisa. Agora, não tinha mais o mesmo sentimento. Tinha descoberto sua identidade entre as árvores e as flores. Ele havia testemunhado como todas as coisas na natureza se completam na estação certa. Agora ele também se sentia completo com a alegria abundante da natureza. Durante meses ele comparou tudo que sentia nos bosques com o que sabia que iria sentir das pessoas. Aqui nos bosques ele observou cada momento se renovar através da vividez do “Agora” sempre presente. Independente do tempo ou dos dias havia uma grande paz interior. Ele colheu uma pequenina flor e olhou-a com atenção. De algum modo, sabia que a flor seria capaz de lhe responder. Sem palavras, a flor encheu-o de alegria; e ele percebeu que ela o fazia sem perder sua beleza própria. Mas ele havia colhido a flor e sabia que ela não cresceria mais. Isso o entristeceu. Se apenas ele fosse capaz de ter sua resposta ao olhar para a flor sem tirá-la de seu habitat natural... e então ele ficou iluminado. Se deixasse a floresta para iluminar os outros, estaria afastando a si mesmo de sua fonte natural. Por quanto tempo suportaria? Como a flor, ele floresceria apenas durante algum tempo e então murcharia. Ele decidiu que seria mais sábio permanecer dentro de sua fonte. O “Agora”, no final das contas, não era alguma coisa de que se gabar ou mesmo para se levar aos outros, mas, sim, para se experimentar pessoalmente. Ele sorriu enquanto pensava: “Deixe aqueles que desejam conhecer a ventura virem para a floresta por eles mesmos, onde bem dentro dos recessos de suas mentes e corações sentirão o vento, provarão a chuva, e deixe que a gentil sabedoria da lei natural guie sua viagem."
Martin Schulman, in
O Carma do Agora  

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Um comentário:

Gislene disse...

Oi amiga!

Tem um selo pra você no meu blog!

Abraço.