6 de janeiro de 2011

COMO UMA FOLHA TEMOS MUITAS HASTES



Num dia de outono, eu estava num parque, absorto a contemplar uma linda folha, muito pequena e em formato de coração. Sua cor era quase vermelha e ela mal se mantinha suspensa no galho, quase pronta para cair. Passei muito tempo com ela e fiz algumas perguntas. Descobri que a folha fora mãe da árvore. Geralmente, pensamos que a árvore é a mãe e as folhas, os filhos, mas enquanto olhava a folha percebi que a folha também é mãe da árvore. A seiva que as raízes transportam é só água e minerais, o que não basta  para alimentar a árvore. A árvore distribui, portanto, a seiva para as folhas, as folhas transformam a seiva bruta em seiva elaborada e, com o auxílio do sol e do gás, devolvem o alimento para a árvore. As folhas são, portanto, mães da árvore. Como a folha é ligada à árvore por uma haste, a comunicação entre elas é fácil de se ver.
Nós não temos mais uma haste nos ligando a nossa mãe, mas quando estávamos dentro do útero tínhamos uma haste muito comprida, o cordão umbilical. O oxigênio e o alimento de que necessitávamos chegavam a nós através desta haste. No dia em que nascemos, porém, ela foi cortada, e nós ficamos com a ilusão de sermos independentes. Isso não é verdade. Continuamos a depender da nossa mãe por muito tempo e, temos também muitas outras mães. A Terra é nossa mãe. Temos uma enorme quantidade de hastes nos ligando à nossa mãe Terra. Temos hastes que nos ligam às nuvens. Se não houver nuvens, não haverá água para beber. Somos compostos de pelo menos setenta por cento de água, e a haste entre a nuvem e nós existe realmente. Esse também é o caso do rio, da floresta, do lenhador e do agricultor. Há centenas de milhares de hastes que nos ligam a tudo o que existe no cosmos, que nos sustentam e possibilitam nossa existência. Você  vê a ligação entre mim e você? Se você não estiver aí, eu não estou aqui. Isso é certo. Se ainda não percebe, por favor, olhe com mais profundidade e tenho certeza que verá.
Perguntei à folha se ela estava com medo por ser outono e porque as outras folhas estavam caindo. A folha me respondeu, “Não. Durante toda a primavera e o verão eu estava inteiramente viva. Trabalhei muito para ajudar a alimentar a árvore, e agora grande parte de mim está nela. Não sou limitada por esta forma. Também sou a árvore inteira e, quando retornar ao solo, continuarei a alimentar a árvore. Por isso, não tenho nenhuma preocupação. Quando deixar este galho e for caindo até o chão, acenarei para a árvore e lhe direi, ´Vamos nos ver em breve´.”
Naquele dia o vento soprava e, depois de algum tempo, vi a folha cair do galho e dançar até o chão, cheia de alegria, porque flutuando no ar ela já se via novamente na árvore. Ela estava muito feliz. Inclinei minha cabeça em reverência, sabendo que tenho muito a aprender com aquela folha.
Thich Nhat Hanh, i n
Paz a cada passo

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