10 de fevereiro de 2011

INTERSER



Certo dia, fui ao grande mosteiro da Paz Eterna, em Fukui, no Japão. O mosteiro tem cerca de 70 edificações, é um dos mosteiros sede da tradição soto-zen budista e pode abrigar mais de 500 monges. Eu fui para uma visita formal e me colocaram em um grande aposento. Lembrei-me da primeira vez em que subi essa montanha, há muitos anos, cheia de expectativas, sonhos e alegria para participar de um retiro especial. Eu fazia parte de um grupo de monjas do mosteiro feminino, onde morava há mais de dois anos. Tinham nos colocado nesse mesmo aposento. Éramos seis monjas esperando pacientemente para que nos conduzissem ao refeitório e às salas de estudos, meditação e preces. Em um mosteiro sede, tudo é muito certinho. Ainda mais sendo um mosteiro masculino, no qual nós, monjas, só éramos admitidas em raras ocasiões. Minhas companheiras, todas japonesas, sentaram-se alegremente para bebericar chá e conversar. Algumas costuravam uns paninhos. Não acreditei.
Há anos sonhava chegar a esse mosteiro. Há anos queria conhecer de perto o templo do mestre que tanto me inspiraria me tornar monja zen budista. Elas não pareciam interessadas em sair de lá. Não agüentei. Sem dizer nada, como quem vai ao banheiro, saí sozinha e comecei a percorrer os longos corredores, as imensas escadarias de madeira. Jovens monges ensaiavam cerimônias, correndo, andando, entoando sutras em voz alta. Outros faziam faxina. A cozinha era enorme, e eles estavam de avental branco e com toalhas brancas na cabeça. Nenhum leigo, apenas monges:
Quando cheguei ao salão memorial do fundador, meu coração bateu mais forte. Queria entrar, fazer reverências, oferecer incenso. Nisso, fui interpelada por uma jovem, com microfone na mão. Era de uma rádio local e queria saber minhas impressões sobre o mosteiro. Surpreendeu-me. Respondi a algumas de suas questões até que ela me perguntou qual era a essência do budismo. Naquele momento, um sino badalou e ecoou por todo o mosteiro. Sem pensar duas vezes, disse: "O som do sino".
Zen não é nada especial. Budismo é estar desperto e completo no instante em que estamos. Passando por essas memórias, entrei no aposento, conduzida por um noviço de cerca de 20 anos, que me pediu para aguardar até que viessem me chamar para os cumprimentos formais. Assim o fiz. Anos haviam se passado e, entre outras coisas, eu também aprendera a esperar.
Era o entardecer. Tudo estava silencioso, a não ser por alguns pássaros. Vesti os hábitos formais, acendi um incenso de sândalo que trouxera, fiz um pouco de chá e, enquanto o bebia lentamente, me pus a olhar para a palha de arroz que forrava o chão de todo o aposento. De repente, percebi o chão vivo. A palha de arroz era um grande arrozal. O vento balançava as longas hastes douradas. Foi  tudo muito rápido, mas muito vívido. Pouco depois, o chão voltou a ser a palha de arroz antiga, já um pouco desgastada pelos anos de uso, mas ainda em muito bom estado. Pensei em todas as pessoas que aqueles tatames suportaram e as que ainda servirão e senti uma grande reverência pelos campos de arroz.
A interdependência; ensinada nos textos sagrados, está em toda parte. O arroz só é possível se houver água, sol, nuvem, sapos que coaxam nos verões à sua volta; senhoras idosas de costas curvas pelos anos de constante plantar e colher. O arrozal existe se houver crianças correndo, varais de roupas coloridas, minhocas e até nossos pensamentos e sentimentos. Tudo interligado, interconectado e vivo. O arroz é feito de coisas "não-arroz". Cada um de nós existe graças a todos os "não-nós".
Palha de arroz. Tatame. Vislumbre breve do milagre de "interser".
Monja Coen
Fonte: http://www.humaniversidade.com.br/colcoen.htm#interser 

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Um comentário:

Cris Tarcia disse...

Patricia, lindo texto da Monja Coen. Um belo ensinamento, todos estamos interligados,tive a oportunidade de participar de uma palestra dela aqui em Belo Horizonte, foi um momento encantador pra mim, ela transmiti uma energia forte e com grande doçura.
Beijos