19 de março de 2011

INTUIÇÃO



Vivemos em meio a uma multidão de invisíveis que nos governam: Valores Familiares, Autodesenvolvimento, Relações Humanas, Felicidade Pessoal, e ainda um conjunto de figuras míticas mais impiedosas chamadas Controle, Sucesso, Custo-benefício e (o invisível maior e mais presente) a Economia. Estivésse mos nós na Florença do Renascimento, na Roma ou na Atenas da Antigüidade, nossos invisíveis dominantes seriam estátuas e altares, ou pelo menos pinturas, como os invisíveis florentinos, romanos e atenienses chamados Fortuna, Esperança, Amizade, Graça, Modéstia, Persuasão, Fama, Feiúra, Esquecimento... (...)
Talvez o nosso apego a estes outros tipos de invisíveis diários que aceitamos sem pensar é que lhes dê firmeza. Se nos agarramos como cracas ao nosso conjunto de invisíveis favorito, este conjunto é uma verdadeira rocha. O filósofo Henri Bergson explicou por que preferimos partículas a mitos: ”O intelecto humano sente-se bem em meio a objetos inanimados, sobretudo sólidos, onde nossa ação encontra seu fulcro e nossa indústria seus instrumentos;... nossos conceitos se formaram nos moldes dos sólidos... nossa lógica é, predominantemente, uma lógica de sólidos.”3 Bergson conclui, portanto, que o intelecto luta furiosamente contra relatos de todo o tipo, como os mitos, os quais condena com argumentos sólidos, fundamentado em fatos, apoiado em evidências e estruturado pela lógica. (...)
O modo tradicional de se perceber o invisível e portanto de se perceber o fruto do carvalho é o intuitivo. A intuição inclui também o que chamei de sensibilidade mítica, pois o mito, quando nos impressiona, parece verdadeiro e nos dá uma intravisão imediata. (...)
Nossa percepção das pessoas é principalmente intuitiva. Apreendemos o todo da pessoa — modo de falar, de vestir, constituição física, expressão, compleição, voz, princípios, gestos, as pistas regionais, sociais e de classe — tudo se apresenta ao mesmo tempo, como uma gestalt completa, à intuição. Antigamente, os médicos usavam a intuição em seus diagnósticos. O mesmo fazem fotógrafos, astrólogos, chefes de departamento de pessoal, agentes esportivos, responsáveis pela admissão e seleção de universitários e, provavelmente, analistas da CIA também, ao colherem as informações de campo e ao verem um significado invisível num monte de dados tediosos. A intuição capta a imagem, o paradigma, uma gestalt completa.
As intuições acontecem. Nós não as fazemos. Elas nos chegam como uma idéia repentina, um julgamento definido, um entendimento. Elas chegam com um acontecimento, como se trazidas por ele ou inerentes a ele. Você diz alguma coisa, e eu ”saco”, na mesma hora. Você me mostra um poema curto e complicado, e ”eu entendo”. Vamos àquela exposição badalada no museu, e sem ler nem ouvir nenhuma explicação, de repente eu me pego dizendo ”Ah-ah” diante de um quadro na parede. A intuição bateu. (...)
Por serem claras, rápidas e integrais e, portanto, tão convincentes, as intuições às vezes são totalmente equivocadas, errando o alvo tão em cheio quanto acertam. Jung, que colocou a intuição (juntamente com o raciocínio, o sentimento e a sensação) entre as quatro funções da consciência, frisou a carência que a intuição tem de suas funções irmãs. Sozinha, ela pode pegar o bonde errado da mesma forma que o certo, ou partir com uma certeza paranóica, esquecendo a lógica, o sentimento e os fatos. Mas o realismo irônico de Jung em relação à intuição não foi partilhado pela corrente idealista dos filósofos intuitivistas. Baruch Spinoza, Friedrich Schelling, Benedetto Croce, Henri Bergson, Edmund Husserl e Alfred North Whitehead enobrecem-na de um modo ou de outro como um dom axiomático e semidivino, que é também um método filosófico de conhecimento da verdade.
A intuição também é invocada para explicar a criatividade e o gênio, o inexplicável explicado por um processo que é em si mesmo inexplicável. Mas a idolatrização da intuição deixa de lado especialmente sua sombra mais obscura, o oportunismo intuitivo do sociopata, e os rompantes claros, rápidos e integrais do criminoso psicopata cujas proposições diretas e evidentes produzem atos totalmente arbitrários e aleatórios de violência, sem lógica, sentimento, nem apreciação dos fatos reais.
A intuição pode propor um modo, mas não garante ação correta nem mesmo percepção acurada. É o que demonstram atos intuitivos como apaixonar-se pela pessoa errada, levantar falsas acusações e assinar demissões precipitadas, e esses autodiagnósticos que acabam se mostrando totalmente hipocondríacos. Embora certa, a intuição pode não ser precisa. Nossa sensibilidade mítica pode captar as novidades autênticas das coisas subjetivas, mas a autenticidade só pode ser garantida pela verificação dos fatos, a lembrança da tradição, o rigor do raciocínio e a avaliação com sentimento. Durante séculos, a Igreja Católica Romana usou esses métodos para testar reivindicações intuitivas de santidade e examinar milagres.
Esta digressão sobre a intuição foi necessária por três motivos. Primeiro, precisávamos de um termo aceitável para o tipo de percepção que vê de forma mítica (”vi essas coisas sentirem”), que vê através do visível e afirma penetrar no invisível. Precisávamos tornar psicologicamente plausível a idéia de sensibilidade mítica, equivalente à matemática e à musical, a fim de que a confiança no mito apresentada neste livro fosse convincente. Para entender ou ser entendido pelo mito, é necessário ter intuição. A relevância de um mito para a vida bate como uma revelação ou uma proposição auto-evidente, que não pode ser demonstrada pela lógica nem induzida através de evidências factuais. A melhor evidência é a anedota, o exemplo que ilumina uma idéia obscura com um clarão intuitivo.
O segundo motivo dessa digressão foi mostrar uma função comum atuando nas três pontes, a matemática, a música e o mito, e também no domínio da estética ou beleza. É a intuição que dá instantaneidade e segurança a cada uma delas. A teoria de Kant sobre a estética baseia-se na intuição, assim como a descrição de Mozart de composição. Estudiosos da inspiração poética e da invenção matemática mostram a certeza imediata da intuição nos exemplos que apresentam — como a afirmação conhecida do matemático Henri Poincaré de que ”A princípio, o mais impressionante é essa iluminação súbita”.
James Hillman, in
O Código do Ser  

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5 comentários:

Adelia Ester Maame Zimeo disse...

"Para entender ou ser entendido pelo mito, é necessário ter intuição. A relevância de um mito para a vida bate como uma revelação ou uma proposição auto-evidente, que não pode ser demonstrada pela lógica nem induzida através de evidências factuais". Este trecho sintetiza o texto magnífico de Hillman. Lindo! Beijos.

Dayse disse...

Me apaixonei pelo seu blog...maravilhoso, comecei a ler os textos e estou me sentindo em casa...parabéns e obrigada...um abraço

Helen De Rose disse...

Olá Patrícia, gostei do texto, agradeço por compartilhar.

Jorge disse...

Apenas creio que seguindo a intuição, não há erros pois estreitamente vinculado com a Espiritualidade Superior, ou mesmo ao SELF.

Minha amiga, beijo, de coração!

alma disse...

...hay tanta belleza en lo abstracto