19 de junho de 2011

SOBRE O TEMPO E A ETERNIDADE



Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental.Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para  pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu  pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida  mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma.  Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E  logo me assustei. Nietzsche ficou louco.  Fernando Pessoa era dado à bebida.  Van Gogh matou-se.  Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com  tanta angústia.  Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.  Maiakoviski suicidou-se. 
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito  depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? 
Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais,  previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus  lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho,  ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela,  basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um  amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.  Pensar é uma coisa muito perigosa... 
Não, saúde mental elas não tinham...  Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e  idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde  mental.  Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria  de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa.
Por outro lado, nunca ouvir falar  de político que tivesse depressão.  Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.  Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos  devidos esclarecimentos.  Nós somos muito parecidos com computadores. 
O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas  partes.  Uma delas chama-se hardware, literalmente "equipamento duro", e a outra denomina-se  software, "equipamento macio".  Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.
O  software é constituído por entidades "espirituais" - símbolos que formam os programas e  são gravados nos disquetes.  Nós também temos um hardware e um software.  O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema  nervoso.
O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na  memória. Do mesmo jeito o como nos computadores, o que fica na memória são símbolos,  entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo "espirituais", sendo que o programa mais  importante é a linguagem. 
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.  Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e  neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não  funcionam.
Não se conserta um programa com chave de fenda.  Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos, podem entrar dentro dele.  Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos, eles podem vir de  poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, pastores, amigos e até mesmo  psicanalistas... 
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade  que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu  software produz. 
Pois não é isso que acontece conosco?  Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica  excitado.  Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware,  tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a  beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! 
Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: A música que  saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou... 
Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita  que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, "saúde mental" até o fim dos seus dias. 
Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música...  Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados.  Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar.  Tranqüilize-se, há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há  livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o  mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a  mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará  sempre coisas iguais.
E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu  Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como  você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. 
E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para,  então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento,  você já terá se esquecido de como eles eram..." 
Rubem Alves, in
Sobre o tempo e a eternidade 

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