8 de julho de 2011

AS DOCES VOZES DO SILÊNCIO


Joop Frohwein

Onde andará em nossa vida atribulada de hoje o espaço do silêncio, no qual podemos ouvir, não apenas a voz de Deus (já seria tanto), mas, igualmente, a nossa.
Somos vítimas da impossibilidade de silêncio. Instância ao mesmo tempo esmagadora e transcendente, o silêncio desaparece da vida extrovertida em sociedades contemporâneas. Os espaços intrapessoais foram invadidos por sons, imagens, atividades, obrigações, estudos, leituras. Sempre há alguém falando direta ou indiretamente com esse habitante do século vinte e um, no afã de fazer-lhe a cabeça, ganhar-lhe a vontade, ocupar-lhe o bolso ou a opinião... É sempre de fora para dentro. Sempre. O homem de hoje já não sabe deixar fluir de dentro para fora os pensamentos livres de sua cabeça, que não tenham necessidade de levar a algum fim útil ou a alguma conclusão pragmática. Já não mais sabemos ouvir as vozes do silêncio.
Temos duas formas de pensar.  Uma, quando nos dedicamos a pensar diretamente em algo, problema a resolver, dificuldade a solucionar. Outra, quando somos pensados pelo que emerge de dentro, sem a orientação da lógica. E só somos pensados pelo próprio pensamento, quando obtemos uma instância de silêncio na qual o resultado desse fluxo criativo, caótico, luminoso e incessante pode emergir e ocupar o lugar dos pensamentos dirigidos e pensados (sempre motivados por realidades externas a nós). É meditação, no sentido oriental do termo.
Vivemos tempos de ditadura do pensar dirigido, objetivo e pragmático. Mas, sem deixar fluir o mistério individual, jamais seremos nós mesmos e sim, o que os demais e os sistemas querem que sejamos.
Os pensamentos dirigidos a algum fim são muito importantes. Enérgicos e implacáveis, eles se impõem sem pedir licença. São uma espécie de diretor-executivo da cabeça. Já os pensamentos que nos pensam, por virem de dentro, são "pessoas" educadíssimas, finas, incapazes de aparecer se não deixamos. Só surgem quando lhes dedicamos uma instância de silêncio e paz. Qualquer abalo externo os fará recolherem-se, sensitivos.
É neles que está a nossa verdadeira verdade.
Artur da Távola


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Um comentário:

Jorge disse...

Excelente texto do Arthur.
Concordo com o pensar dele, apesar da dificuldade em mergulhar no silêncio de nós mesmos e sentirmos o nosso próprio pensar.
Mas este, creio, o caminho para o auto-equilíbrio em relação a mundo que nos rodeia.

Patrícia, um fim de semana de muita alegria em teu coração!!!
Beijo