3 de julho de 2011

ESPIRITUALIDADE


 Miguel Tió

O século 19 enfatizou, de forma obsessiva, o tema da competição. Darwin apontou para a competição entre as espécies; Marx, para os conflitos entre as classes; e Freud, para a guerra entre as potências psíquicas, entre instinto e civilização. Competitividade passou a ser uma fascinação excludente e dilacerante: para um ganhar, o outro precisa perder. Basta olhar para o cenário hipnótico da Copa do Mundo. E agora, diante de um abismo que pode ser fatal para a sobrevivência das novas gerações, precisamos aprender o sentido de palavras esquecidas, como cooperação, parceria, sinergia, amor. Precisamos aprender com os bandidos que, após um primeiro breve encontro, já trocam cartões, figurinhas, iniciando as negociatas. Os que lutam pela paz e integridade têm sido muito lentos nesta prática de agregação, trocas e de mutualidade. Neste sentido, é muito bom constatar o início de integração e dialogicidade destes três setores de uma mesma sociedade. Só uma rede de amor pode fazer frente à rede de terror, esta face tenebrosa e tão presente neste início de século e de milênio. Quando eu falo em espiritualidade, não estou me referindo a nenhuma igreja, a nenhuma religião particular, embora respeite todas. Refiro-me à espiritualidade como o fazia Einstein, apontando para uma vivência cósmica; ou, ainda, outro físico contemporâneo, Fritijof Capra, que denominou seu penúltimo livro de Pertencendo ao Universo. Espiritualidade é uma consciência não-dual, uma consciência de participação, da parte no todo, que na essência é o amor, e na prática é solidariedade. Uma pessoa que despertou para essa dimensão espiritual é uma pessoa que não se vê separada do outro, da comunidade e do Universo. Eu pergunto: em sã consciência, você colocaria fogo no seu corpo? Se você sente-se não-separado do outro, você jogaria fogo em alguém que está dormindo num banco? E se você se sente não-separado da natureza, você iria empestá-la, destruir ecossistemas por uma neurose de progresso compulsivo, que foi decantada no século passado por Comte e que, agora, testemunhamos o lado sombrio dessa religião do progresso a qualquer custo, progresso a custa da hecatombe? Você empestaria a natureza se você se sentisse não-separado dela? Sem sombra de dúvida. Nestes últimos séculos temos investido, de forma unilateral, no mundo da matéria, e os frutos são notáveis, sintetizados na tecnociência maravilhosa que dispomos. A grande tragédia, entretanto, é que não houve praticamente nenhum investimento significativo no mundo da subjetividade, da alma, da ética, da consciência, da essência. O resultado encontra-se nos noticiários tristes e apocalípticos de cada dia: escalada de violência e guerras infindáveis; a exclusão desumana de uma maioria, que morre de fome, por uma minoria, que morre de medo; extinção em massa de espécies; rota da colisão do ser humano com a natureza e todo tipo de aplicações tecnológicas irresponsáveis. O investimento maciço na alma é a única estratégia que poderá viabilizar a perpetuação, com qualidade e dignidade de nossa espécie. Antigas e esquecidas lições: para que serve ganhar o mundo inteiro se você perdeu a sua alma, se você se perdeu de si mesmo, se você se esqueceu do ser que lhe faz ser? Felizmente, crise é também oportunidade de aprender e de evoluir. Gosto de confiar que o ser humano será a maior descoberta do terceiro milênio!
Roberto Crema

Share/Bookmark

Nenhum comentário: