21 de janeiro de 2012

A DOENÇA COMO LINGUAGEM DA ALMA

Leslie Macon


Como microcosmos (ser humano), somos uma reprodução do macrocosmos (mundo) e trazemos em nós todas as imagens desse mundo. Quando esquecemos isso, elas mergulham cada vez mais profundamente no inconsciente e a formação se degenera em uma torrente de informações a cuja altura não estamos, mesmo com nosso intelecto altamente treinado. Até mesmo na palavra informação esconde-se ainda a forma, o padrão, e mostra quão profundamente estamos ligados a esse aspecto da realidade. As imagens são o alimento da alma, sem esse alimento nossas almas morrem de fome.
As imagens das doenças, os sintomas, também são alimento da alma, e muito melhores que quaisquer imagens. (...) Seria muito bonito se a compreensão racional fosse suficiente e fosse possível curar-se através da leitura e da compreensão de padrões. Segundo todas as experiências, isso é a exceção. A compreensão precisa levar a "agarrar" e tocar a alma e dar acesso ao mundo dos sentimentos e das sensações. Quando, ao final de A Doença como Caminho, dizemos que contemplar e conhecer é suficiente, estamos nos referindo com isso a um conhecimento no sentido bíblico, uma admissão de si mesmo no sentido mais profundo. Abraão conheceu Sara, e o resultado ainda assim foi Isaac.
Portanto, a compreensão intelectual como primeiro passo não deixa de ser importante, ela só não é suficiente. A admissão do próprio mundo de imagens  poderia ser um segundo passo nessa direção. Viagens imaginárias feitas com a ajuda de música para a meditação e imagens verbais vão mais fundo que excursões intelectuais. Quando a leitura de um livro já é perigosa para velhas posturas e preconceitos, excursões nas asas das imagens interiores, conseqüentemente, contêm experiências e perigos mais profundos para velhos modos de comportamento e de doença. As viagens no sentido do substituto aqui representado levam muitas vezes a âmbitos que freqüentemente permaneciam estranhos e fechados.
Não se pode certamente dizer que viajar é algo inofensivo. Mas não viajar é muito mais perigoso que viajar. Quem aprendeu a conhecer o mundo externo viajando também precisou enfrentar perigos. Caso ele, ao contrário, tivesse permanecido por toda a vida em sua cidade natal, teria evitado esses perigos, mas em compensação estaria muito mais vulnerável em relação ao desconhecido. Reconhecidamente, as viagens formam e, com isso, alimentam a alma com imagens.
Algo análogo ocorre com nossas viagens interiores. O mundo interno modifica-se tão pouco por ser conhecido como o externo. Mas ambos deixam de ser ameaçadores, porque todo perigo conhecido amedronta menos. Em última instância, com os sintomas não se trata de uma modificação das coisas em si, dos temas e dos conteúdos das doenças, mas de mudar a maneira de ver. A tarefa de aprendizado e também o padrão permanecem os mesmos, mas faz uma grande diferença se esse padrão é extraditado para o plano físico em um círculo vicioso ou vive livremente em um plano liberado. Quem escuta sua voz interior pode também com isso ouvir coisas pouco elogiosas a seu respeito. Visto dessa maneira, a curto prazo é mais agradável não escutá-la. Mas ignorá-la é perigoso a longo prazo, pois quando a voz interior se torna repentinamente alta após ter sido negligenciada por muito tempo, já é tarde. Na maioria das vezes, o psiquiatra consultado não a escutará e dificilmente lhe atribuirá algum significado, mas tentará bloqueá-la com armas químicas. A experiência diz que faz mais sentido aprender a conhecer o mundo interior a tempo e com calma que sob pressão longamente acumulada. O relacionamento com o corpo corresponde ao relacionamento com a alma. A ignorância e a repressão são mais cômodas a curto prazo, mas a longo prazo é mais saudável atrever-se a confrontar as imagens internas e crescer, em vez de pressionar. Os dois tipos de medicina e também de psicologia têm suas vantagens: a medicina e a psicologia acadêmicas têm por objetivo a prosperidade a curto prazo, pondo de lado a cura, enquanto a medicina e terapia interpretativas colocam o bem-estar em segundo plano e buscam a cura a longo prazo.
Antigamente viajava-se menos pelo mundo exterior, e quando se viajava, tratava-se na maioria das vezes de peregrinações, que ligavam o mundo externo com o interno. A tendência de empreender viagens externas sem relação com viagens anímicas internas é relativamente nova e dá uma impressão peculiar a um olhar mais atento. Viagens culturais, que absolutamente não estão interessadas no culto, flutuam no ar de maneira tão estranha como as viagens de formação, que evitam estabelecer contato com as imagens interiores. Elas poderiam ser facilmente substituídas por filmes culturais. As chamadas viagens de restabelecimento, consideradas do ponto de vista médico, são em sua maioria um escárnio à saúde. Essa miséria das viagens chegou até aos organizadores: estão sendo desenvolvidos constantemente novos conceitos que, na medida em que lhes falta a relação com viagens interiores, são logo novamente descartados. Viagens de aventura podem ser mais eletrizantes que as que se faz para tomar banho de sol, mas as verdadeiras aventuras são sempre internas; na melhor das hipóteses, elas também o são externamente.
Em épocas antigas, a viagem do herói era um caminho interior que unicamente se refletia no exterior. Viagens rumo às próprias tarefas de aprendizado, tais como elas se refletem nas paisagens internas dos quadros de sintomas, são as verdadeiras viagens heróicas. Elas com freqüência não são especialmente agradáveis e nunca belas, às vezes elas exigem muita coragem, mas elas são sempre recompensadoras. Tal como foi descrito no primeiro volume, um guia pode ser útil em viagens longas, e às vezes ele é necessário. Em nossa época, esses guias se chamam psicoterapeutas. Eles existiram em todas as épocas, só que antes, quando os seres humanos viviam por si mesmos nos mundos de imagens de seus mitos e contos de fadas e confiavam em sua fantasia, eles tinham outros nomes e menos trabalho. Isso não estava tão relacionado com intervenções em crises agudas, mas sim com a indicação do caminho e o acompanhamento àquele outro mundo interno que está sempre lá e que nos espera. Quando não tomamos qualquer medida para nos aproximar-nos dele, ele vem ao nosso encontro e nos faz sinais sob a forma de sintomas e de quadros de doenças completos.
Quando vemos e utilizamos as oportunidades contidas nos sintomas, nossa vida não se torna necessariamente mais fácil, mas nós nos tornamos mais conscientes da responsabilidade e também mais ricos. Cada erro se transforma em possibilidade de crescer a partir dele, já que acrescenta algo à nossa vida que faltava até então. Portanto, a valoração poderia dar uma volta de 180 graus: em vez de afastar os problemas ou esquivar-se deles, é uma alegria ir a seu encontro e descobrir as possibilidades que neles se ocultam. Nesse sentido, as perguntas levantadas em cada capítulo podem tornar-se o fundamento de uma meditação pessoal, em uma viagem ao mundo dos símbolos da própria problemática. O que temos a perder? O tempo de vida abre-se diante de nós como um vasto campo de possibilidades. Tudo é possível quando aceitamos o desafio da vida não somente no sentido externo, mas também no interno. Uma vida externamente agressiva com coragem em relação às próprias possibilidades pode contribuir para o desenvolvimento, uma vida interior corajosa pode levar o desenvolvimento ao objetivo.
As mais diversas religiões fazem referência ao caminho que passa pelo mundo interior, e em nosso âmbito cultural a doutrina cristã dá indicações inequívocas a esse respeito. Com o dito já citado: "Seja quente ou frio, o morno eu cuspirei!", Cristo aconselha a que se ouse até os extremos, advertindo ao mesmo tempo contra os compromissos mornos e falsos. Caso esse caminho, o da viagem heróica, seja conquistado, passa a ser finalmente válida aquela outra sentença: "Se alguém golpear sua face esquerda, ofereça-lhe a direita". O homem auto-realizado, que encontrou o centro entre os pólos e o centro em si mesmo, não avalia mais e sabe no fundo de seu coração que tudo o que distribui volta para ele.
Em última instância, toda terapia que merece esse nome pode ser resumida naquele que é talvez o mais importante dito de Cristo: "Ama teus inimigos". Jamais se poderá dizer mais sobre as terapias, nem descrevê-las de maneira mais breve e concisa. Nós hoje temos a tendência de descrever a mesma coisa de maneira mais moderna e mais complicada: "Aceite de volta suas projeções". Pois tudo o que nos falta para a cura está em nossa sombra, e como lá não o podemos nem queremos ver, nós o projetamos sobre superfícies de projeção. Nossos inimigos são superfícies externas de projeção que refletem para nós aquilo que não podemos suportar em nós e que por isso mesmo detestamos nos outros. Os sintomas das doenças são inimigos internos para a maioria das pessoas. O próprio corpo transforma-se em superfície de projeção das facetas de que não gostamos. Quando conseguimos amar os inimigos externos e internos, o resultado é a cura. E nós o conseguiremos tanto mais facilmente quanto mais estivermos em condições de reconhecer a doença como linguagem da alma. Então, o que temos é a doença como caminho. Este não é novo nem complicado, ele é tão atemporal, tão simples e tão exigente como as eternas palavras: AMA TEUS INIMIGOS.
Rudger Dahlke, in
A doença como linguagem da alma  

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3 comentários:

Andanhos disse...

Que texto interessante!
Temos muito a aprender com nosso corpo e com as enfermidades.
Abraços fraternos.

Henrique Colonese disse...

Patricia Melo,

Você possui um lindo Blog com belas mensagens....

Parabéns...
http://campechefatosefotos.blogspot.com/

Sheila do Blog Passarinhos no Telhado disse...

Oi Flor!
Hoje a minha visita é para te fazer um convite! :)
Venha participar do “Mosaico de Luz” do Blog Passarinhos no Telhado!
Conto com a tua participação hem!
Grande beijo!
Sheila
Passarinhosnotelhado.blogspot.com