7 de junho de 2012

BONDADE AMOROSA



Existe um mal entendido, comum a todos os seres humanos nascidos através dos tempos, que a melhor maneira de se viver é evitar a dor e buscar bem estar, o que também se aplica aos insetos, pássaros e outros animais. Nisto somos todos iguais.
Para que a vida seja uma aventura envolvente, generosa, e divertida precisamos fomentar a curiosidade, em qualquer tipo de experiência seja amarga ou seja doce. Para não agirmos de forma mesquinha ou preconceituosa na realização de nossos objetivos e para tornar a vida mais plena precisamos saber suportar tanto a dor quanto o prazer. Assim, aprenderemos a saber quem somos e o que seja o mundo, o que nos move e o que move o mundo; enfim, como as coisas verdadeiramente são. Se apenas buscamos bem estar a qualquer preço, nos evadimos diante do menor desconforto e nunca saberemos o que está por detrás do obstáculo, do muro ou do medo.
Quando começamos a meditar ou adotamos uma disciplina espiritual pensamos em melhorar, o que não deixa de ser uma agressão sutil a quem verdadeiramente somos. É como se disséssemos, "começando a fazer exercício serei uma pessoa melhor." "Se ao menos minha casa fosse como eu quero, seria uma pessoa melhor." "Se pudesse meditar e acalmar-me, seria uma pessoa melhor". Ou então, encontrarmos defeitos nos outros e pensamos: "se não fosse o marido, meu casamento seria perfeito." "Se não fosse as diferenças com o chefe, meu trabalho seria maravilhoso." Ou, "se não fosse minha mente, a meditação seria muito boa."
Mas na prática da bondade amorosa—maitri—quando dirigida a nós mesmos não quer dizer descartar o que quer que seja. Maitri quer dizer que podemos ainda estar alucinados depois de todos estes anos, podemos estar ainda zangados depois de todos estes anos, podemos ainda ser tímidos, ciumentos ou ainda nos menosprezarmos depois de todos estes anos. O importante não é tentar mudar. Para meditar não é preciso descartar quem somos para ser uma pessoa melhor. O importante é cultivar o apreço por quem já somos. O fundamento da prática somos nós mesmos, ou eu, ou aquilo que somos agora, tal como somos. Este é o fundamento de toda a prática, somos o objeto da nossa observação e vamos passar, com muita curiosidade e interesse, a nos conhecer.
Para os budistas, a palavra "ego" é usada de forma depreciativa, tem uma conotação distinta da palavra freudiana. Os budistas dizem, "o ego me traz muitos problemas," o que nos levaria a pensar, "então, vou descartá-lo, certo? Assim, acaba o problema." Pelo contrário, a idéia não é descartar o ego mas fazer de nós mesmos o objeto do nosso interesse, tratar de investigar quem somos.
Ambos os caminhos da meditação e da vida dizem respeito ao desenvolvimento da curiosidade, da investigação. O fundamento somos nós próprios; estamos aqui para saber quem somos, para nos conhecer agora—não mais tarde. Muitas pessoas comentam que gostariam de marcar uma entrevista comigo, escrever uma carta, ter uma conversa ao telefone, mas querem esperar até estarem bem. Penso então, "se você é como eu, pode esperar para sempre!" Então, venha assim mesmo como se sente agora. A magia é ser capaz de se abrir ao momento como ele se apresenta, se dispor a viver plenamente e com atenção o momento presente. Quando meditamos observamos que estamos sempre fugindo do momento presente, evitando a nossa própria presença, tal como somos. Não é uma crítica, é uma constatação do que acontece.
A curiosidade e a investigação envolvem suavidade, precisão e abertura—entregar-se ao processo. A suavidade é tratarmo-nos com carinho. A precisão é ver claramente, permanecer com destemor diante do que surge, como o cientista não teme olhar no microscópio. A abertura é a entrega corajosa.
Verão que ao fim deste mês que passarão meditando será como se ao fim de cada dia, passassem um vídeo de vocês mesmos em que pudessem ver tudo. Teriam arrepios e diriam, "Agh!" porque provavelmente se veriam fazendo exatamente o que criticam nas pessoas que menos apreciam e todas as que criticam. Assim, cultivando o apreço por nós mesmos cultivamos o apreço pelo outro porque com este elevado grau de sinceridade, honestidade, suavidade e carinho, associados à transparência da visão sobre nós mesmos já não existem obstáculos para o sentimento de bondade amorosa em relação ao outro.
Assim, o fundamento de maitri somos nós mesmos. Estamos aqui para nos conhecer, para investigar a nossa natureza. O caminho e os meios serão a meditação e uma atitude desperta. A investigação não será restrita aos momentos em que estamos meditando; ela continua quando vamos de um lugar para outro, nos toaletes, quando saímos a passeio, cozinhamos ou conversamos, o que quer que façamos, manteremos esta sensação de estarmos vivos, abertos e curiosos sobre o que se passa. Talvez alcancem mesmo o que se chama o fruto de maitri—um estado lúdico.
Esperemos que seja um mês bem passado, conhecendo-nos melhor, aprendendo a nos divertir e a ficar menos carrancudos.
Texto de Pema Chödrön
Resumo do livro, "The Wisdom of No Escape" 1996
Publicado por Shambhala Pocket Book Classics
Traduzido e revisado por Tenzin Namdrol
Fonte: http://www.nossacasa.net/

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