31 de agosto de 2012

INTRODUÇÃO AO ENEAGRAMA



Imagine um guerreiro antigo que treinou desde seus 6 anos de idade para lutar com espadas. Com 20 anos de idade, esse guerreiro é imbatível na luta! Seus adversários caem um após o outro. Os inimigos o respeitam, observam sua habilidade e treinam para enfrentá-lo. Até que começam a notar suas fraquezas. Ele é finalmente morto dentro de uma carruagem. Lá ele não podia usar sua espada!
Esse guerreiro foi excelente, como não podia deixar de ser, na habilidade com a espada. Era tão bom que nem precisava treinar muito com facas, arco e flecha etc. Teve muito sucesso com sua especialização. Habituou-se tanto que hoje tem uma perigosa tendência de escolher sempre a espada.
Este guerreiro pode ser você! Há um pouco dele em cada um de nós. Desde os 6 anos de idade treinamos alguma maneira de sermos aceitos e conseguir o que queremos dos outros, do "mundo". Nos especializamos com uma espada. Sabemos usar outras "armas", porém sempre temos tendência a escolher aquela com a qual nos sentimos mais seguros, principalmente em situações críticas.
Assim, uma pessoa pode decidir "treinar-se" no uso da "verdade" ela sempre vai buscar a verdade, esclarecer e deixar as coisas "transparentes". Isso funcionou na família, e continuou funcionando na escola e com os amigos. Ela passou a ser respeitada e conseguiu vencer. Isso é bom e importante. Acontece que esta é a única habilidade que ela resolveu desenvolver. Um dia ela descobre que a verdade é relativa. Depende do contexto, da situação no tempo e no espaço; como parece ter dito Ghandi: "Sou coerente com a verdade e, como a verdade muda, reservo-me o direito de ser incoerente". Neste momento essa pessoa começa a ficar insegura, não sabe lidar com aquilo que considera mentira.
Essa metáfora nos ajuda muito na compreensão do que um conhecimento, chamado Eneagrama, pode nos ensinar. O Eneagrama pode nos ajudar muito a descobrir qual foi a "habilidade" que decidimos desenvolver para lidar com a vida. Essas habilidades acabaram se tornando compulsões de comportamento, maneiras "mecânicas" e limitadas de encarar o mundo e os relacionamentos.
As idéias são tão antigas que já foram abordadas pela maioria das grandes religiões. As habilidades que escolhemos relacionam-se diretamente com paixões humanas bem conhecidas e divulgadas, às vezes até deturpadas, ao longo do tempo.
Segundo o Eneagrama, existem 9 (do Grego: Enea = nove; grama= traço, ponto) paixões ou fixações. Temos todos um pouco de cada uma delas, dependendo da situação. Porém, cada um de nós escolheu e desenvolveu uma delas como "espada". Inicialmente foi uma virtude que escolhemos para conseguirmos ser amados e aceitos. Com a compulsão no uso, nasceu um lado negativo, vicioso. Como a referência a esse resultado negativo é mais comum, talvez até por serem tradicionalmente conhecidos, eles estão listados abaixo. Simplificando, cada um corresponde a um tipo de personalidade ("ego" ou "fixação do ego"). Por exemplo, a paixão do E1 (tipo 1 do Eneagrama) é a perfeição que, por não ser possível, gera resentimento ou raiva (ira). É importante notar que em cada caso, a "contra-paixão", se equilibrada, é natural. Assim, a raiva, em si, é natural, porém a raiva constante e reprimida gera frustração consigo mesmo e com o mundo.
IRA - Ela nasce da busca da perfeição. Ficamos com raiva por tudo não ser perfeito. Buscamos a perfeição em nós e nos outros como o bem maior. Assim, o E1 é minucioso, cuidadoso e crítico.
ORGULHO - Ele nasce do esquecimento das nossas necessidades. Queremos ajudar, ser bons, não precisamos de nada. Não sabemos nem pedir. O E2 é prestativo, compreensivo e paciente em aguardar o sucesso.
VAIDADE - Nasce do desejo de sermos admirados pelo que fazemos. Nem sabemos quem somos, sentimos que os outros só nos amam se temos sucesso. O E3 é a imagem do sucesso, e demonstra.
INVEJA - Nasce porque percebemos a beleza nas outras pessoas e não conseguimos perceber a nossa. Somos sensíveis, profundos e invejamos a "beleza" dos outros. O E4 é "diferente", vive no passado.
AVAREZA - Nasce porque temos medo de perder o que temos e ficarmos vazios. O que temos é precioso; conhecimento, afeição, não só dinheiro. O E5 é solitário, estudioso, técnico e observador.
MEDO - Nasce porque percebemos o mundo como um lugar cheio de perigos e de conspirações. Se não nos dizem algo, deve ser porque tem algo que pode nos ameaçar. O E6 é desconfiado, leal e vigilante.
GULA - Nasce do medo da "abundância" acabar. Como somos especiais, merecemos mais de tudo que é bom. A comida é o item mais mal interpretado neste caso. O E7 é genial, é o máximo!
LUXÚRIA - Nasce da nossa necessidade de adrenalina. Queremos ser notados, respeitados. Queremos controlar tudo e todos. O E8 é confrontador, defende os fracos, vê as pessoas como alvos.
INDOLÊNCIA - Nasce de nos sentirmos completos. Se estivermos em harmonia com o universo sempre alguém cuidará de nós. O E9 é mediador, evita confrontos, todo mundo se preocupa demais!
Mas afinal, o que é o Eneagrama? Impossível saber sem vivenciá-lo. Resumindo, é um sistema de análise de comportamento que nos leva a uma profunda percepção sobre o ser humano. O símbolo parece ter origens muito antigas e sua interpretação ter sido sigilosa por muito tempo. Diversos autores que o estudaram situam sua origem entre 3.500 e 2.000 anos atrás.

Tomei conhecimento da sua interpretação relativa aos tipos de egos humanos que, ao que tudo indica, foi recentemente (1960) organizada e desenvolvida por Oscar Ichazo para ser usada como uma ferramenta profunda de autoconhecimento e compreensão humanas. O Dr. Cláudio Naranjo, foi também, nos Estados Unidos, um dos pioneiros no estudo do Eneagrama das personalidades.
O Eneagrama tem em comum com as outras tipologias a "simplificação" do comportamento humano, compartimentando-o a um limitado número de tipos similares. Algumas pessoas dizem que não podemos colocar os seres humanos em "caixas". Penso que outra maneira de lidar com isso seria aceitar que já estamos em "caixas" e o Eneagrama nos ajuda a enxergar e entender nossa caixa para podermos sair dela! De dentro, essa caixa é bem diferente do que quando vista de fora!
Mesmo com intenções positivas, é muito fácil utilizarmos mal uma ferramenta como esta no ambiente empresarial. É grande a tendência para usá-la como um tipo de "pacote" pronto. Escolho um E8 porque ele é duro nas negociações. Só vou contratar E7 e E3 para vendas. Não, o Eneagrama não pode levar em consideração todas as nuances relacionadas aos talentos, habilidades, inteligência e simpatia que usamos para nos relacionar com os outros. Precisamos evitar perceber as pessoas como esteriótipos do seu número no Eneagrama. Aliás, o nível da compulsão varia muito.
Então porque deveriam os executivos e os funcionários entender os tipos do Eneagrama?
Nas empresas, a vantagem competitiva do Eneagrama reside em saber como você e seus colegas de trabalho pensam, sentem e classificam as informações relacionadas ao seu trabalho. Apesar de um E-tipo não ser melhor que o outro, cada um vê o trabalho através da sua lente perceptiva. Antecipar o processo de tomada de decisões das pessoas de uma equipe pode ser um fantástico fator de coesão. Elas saberem mais sobre suas motivações também!
Além disso, como entender o profundo respeito que um E1 tem por você quando decide criticá-lo? Você poderia ficar até mais receptivo para suas críticas! Como perceber, sem conhecer a lente perceptiva de um E6, que duvidar de si mesmo e dos outros é uma maneira de firmar compromissos?
O Eneagrama já foi usado, e provavelmente continue sendo, por empresas como Boeing, Motorola, VLSI Technology etc, para treinamento de seus executivos. No Brasil, sócios e executivos de várias empresas o utilizam, das que tenho conhecimento, as maiores são a Amil e o Banco do Brasil. As informações sobre sua utilização não são tão populares, na minha opinião, pela seriedade e comprometimento com que essas empresas o estão utilizando.
O tópico sobre o Eneagrama que ministro, há mais de 9 anos, em disciplinas dos MBA's da FGV sempre desperta muito interesse nos alunos. Vários já me reportaram estarem utilizando nas empresas.
Foi surpresa para mim, estar sendo o precursor, no Brasil, da divulgação do Eneagrama em cursos formais de pós-graduação para executivos. Nos Estados Unidos, várias universidades ministram cursos sobre o Eneagrama. Entre elas podemos citar: Loyola University, Chicago, Illinois; Stanford University, Palo Alto, California; University of North Florida, Jacksonville.
Uma última palavra pode também explicar a não popularidade do Eneagrama. Não é uma ferramenta para os outros usarem para nós, é uma ferramenta que só nós mesmos poderemos usar. Ninguém, com experiência, vai "fazer" o Eneagrama de ninguém. Não se faz um Eneagrama! É um trabalho pessoal e intransferível. Os testes e as pessoas que o estudam, podem apenas ajudar e orientar na busca. A percepção e os benefícios de entender melhor os outros, de melhorar suas habilidades de comunicação, de negociação e de motivar pessoas, só ocorrem quando você trabalha para perceber e conhecer a si mesmo!                               
Frederico Port
Fonte: http://www.fredport.com/enea.htm



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