De onde nascem nossas crenças? Certamente que nascem
do ambiente sociocultural no qual nascemos, assim como naquele no qual nos
formamos. As crenças de nossos ancestrais que nos foram transmitidas; as
crenças de nossos pais; as crenças vigentes na comunidade onde nascemos e da
qual participamos; como também as crenças da comunidade onde nos formamos, que
pode ser diversa da comunidade onde nascemos. Essas são crenças éticas, morais,
religiosas, políticas, econômicas, medicinais, de autoridade, de vizinhança...
e muitas outras. Contudo, existem crenças que nasceram de traumas que
vivenciamos, especialmente em idade pregressa de nossas vidas.
Crenças que podem nos ter constituído ao longo dos anos
que vivemos, podem ser decorrentes de um trauma de abuso sexual, de abuso do
poder, de desqualificação, decorrentes de práticas religiosas, de submissão a
medos e temores, entre muitas outras possibilidades. Afinal, traumas que estão
gravados indelevelemente em nossa psique.
(...) O trauma psicológico (que sempre decorre de alguma
agressão física) é uma ferida implantada e fixada na memória em função de algum
acontecimento do passado que fora intempestivo, inesperado, abrupto, usualmente
invasor e... sempre não compreendido. E, então, pelo resto da vida, há uma
crença inconsciente de que aquilo que ocorreu vai ocorrer de novo. E essa
crença leva a agir, também de forma automática e intempestiva, diante da
presença de qualquer coisa ou situação que possa indicar que a cena anterior
vai se repetir novamente. Como a cena anterior fora impactante, invasiva,
dolorida, ameaçadora, reage-se para que ela não ocorra novamente. Como resposta
à situação traumatizante forma-se uma crença, que usualmente atua de modo inconsciente,
mas que também pode se expressar de forma consciente. Quantas pessoas na
história não partiram para formar o “seu grupo”, a sua “fé”, o seu “ritual” em
decorrência de dar uma resposta a sua situação traumatizante do passado. Certas
condutas rígidas que são mantidas pela vida inteira como resposta à
possibilidade de que a experiência anterior venha a ocorrer novamente?
Era o fim dos anos 1980. Passei uma noite num incêndio em
um hotel numa determinada cidade do país. Estava hospedado no 14º andar do
hotel e o incêndio deu-se no 8º e 9º andares. Para sorte e felicidade de
todos nós, o incêndio que se iniciara às 22h de um dia se encerrara às 05h do
outro, com o seu apagamento pelos bombeiros. Eu era adulto, já com mais de
quarenta anos de idade, e, então, por anos sucessivos, nunca mais me hospedei
em qualquer hotel acima do 2º andar, de onde, se necessário, poderia descer até
por uma corda feita com os lençóis da cama do hotel. A experiência gerou a
crença de que “por segurança, não devo hospedar-me nunca em um hotel em
apartamento acima do 2º andar”. Por tempos, à noite, eu acordava com a presença
de qualquer cheiro de fumaça no ar, fosse um cheiro próximo ou distante.
Imaginemos, agora, quando o trauma ocorre em tenra idade,
muitas vezes, no período pré verbal, isto é anterior aos dois anos de idade. As
histórias são muitas de crenças que tiveram sua origem em traumas que ocorreram
nas vidas em nossas vidas. Acreditei, temerosamente no inferno por anos de
minha vida, devido minha mãe castigar-me por algumas molecagens e dizer-me
ameaçadoramente que iria par ao inferno. Como fora difícil abrir mão desse medo
e dessa crença arraigada, decorrente de traumas infantis? Um menino que fez um
belo gol jogando num time de futebol infantil, e vai até o pai e pergunta-lhe
se viu o gol que fizera. O pai responde: “Qual é... E, você é capaz de fazer
algum gol?!!!....” E, então a criança se torna adolescente, adulto crendo que
necessita de fazer um gol “para o pai ver”. Evidentemente que com essa crença
se torna um homem bem sucedido, pois a vida inteira passou marcando gols para o
pai ver. Contudo, a que preço? A mulher que acredita não ter o direito de ter
um homem que a ame “porque fora estragada por um abuso sexual na infância”.
Outro que acredita não ter direito ao sucesso financeiro porque roubara duas
mangas na infância e fora castigado exacerbadamente por isso. Outra que
acredita ser feia (mesmo sendo bonita) porque a mãe, de modo predominante, dava
atenção quase que exclusiva para a irmã mais velha. E, assim, por diante... E,
os traumas decorrentes de lutas destrutivas entre povos, entre comunidades,
assim como entre famílias, que geram crenças de que nós somos do bem e o outro
ou os outros são do mal?...
Quantas e quais de nossas crenças nasceram de situações
traumáticas nossas ou da comunidade humana à qual temos um pertencimento? Que
crenças levamos pela vida a fora em decorrência de traumas que vivenciamos em
nossa vida, seja na vida intra-uterina, no nascimento, na infância, na
adolescência, na vida adulta, assim como na maturidade...
Desse modo, sem sombras de dúvidas, constatamos que
muitas crenças --- vividas por nós --- têm suas fontes socioculturais, mas
também, sem sombras de dúvidas, constatamos que outras tantas crenças podem ter
suas origens numa ou em várias situações traumáticas.
Cipriano Carlos Luckesi
Fonte: http://www.curandocriancaferida.com.br/

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