3 de setembro de 2015

A IMPERMANÊNCIA


Tudo em nossas vidas, posses, riquezas, relacionamentos, é temporário e está em constante mutação. Nosso corpo, fala, mente e ambiente mudam minuto a minuto, segundo a segundo. No tempo em que uma agulha leva para perfurar sessenta pétalas de flor empilhadas uma sobre a outra, nada no universo permanece igual. O nosso pior inimigo pode um dia vir a ser o nosso melhor amigo. Casais hoje tão apaixonados que mal podem ficar separados por uma hora, depois de alguns anos poderão vir a sentir repulsa só de ver um ao outro. Não há nada que não oscile, decaia ou se transforme. A vida é imprevisível, nossos processos mentais, instáveis. Nossos humores são susceptíveis às condições externas. Em uma manhã acordamos contentes e tudo parece estar perfeito. Todo movimento envolve mudança. Cada frase que falamos, ao terminar, dá lugar à próxima. Cada pensamento ou emoção desaparece e dá lugar a outro. Isso acontece com tudo, em toda parte. Simplesmente não estamos sintonizados com este processo, presumimos que alguma coisa vai durar até que, de repente, notamos que envelheceu. No mesmo momento em que uma casa é construída já começa a se deteriorar; em cem anos ou menos, estará lamentavelmente danificada. Apesar de devotarmos nossa vida e satisfazer nossas necessidades e ânsias, qualquer felicidade que encontremos será fugaz. Fazemos planos baseados em coisas que constantemente nos escapam pelos dedos. Quando menos esperamos, elas serão memórias distantes. Quantas vezes fomos felizes? Quantas vezes ficamos tristes? Alegria e tristeza vêm e vão o tempo todo. Nenhuma delas dura muito. Cada emoção e cada paixão surge momentaneamente e desaparece como um desenho traçado com o dedo na água. Precisamos perceber que não temos liberdade nem controle. Não podemos escolher quanto tempo iremos viver ou como iremos morrer. Não queremos envelhecer, ainda assim envelhecemos. Não queremos adoecer, ainda assim adoecemos. Não queremos morrer, ainda assim a morte é inevitável, ela pode vir a qualquer momento, quer sejamos jovens, velhos, saudáveis ou enfermos; isso é irrelevante. Por mais maravilhosas que possam ser nossa família, nossa carreira ou nossas posses, não levaremos nenhuma delas para além do umbral da morte. E no dia seguinte à nossa morte, nossos entes queridos não vão querer nosso cadáver em casa. Se entendêssemos que os objetos aos quais nos apegamos são como miragens ou bolhas, o nosso apego enfraqueceria. Se soubéssemos que todo relacionamento é frágil e propenso a mudança, perceberíamos que não há tempo para conflitos. Se compreendêssemos verdadeiramente que podemos não ter mais um dia sequer, pelo menos não destruiríamos as nossas oportunidades e as dos outros de desfrutar dessa vida enquanto a temos. Quando sabemos que cada momento pode ser o último, teremos a perspectiva correta. Algumas pessoas acham que a ideia de impermanência é deprimente, mas ela é realmente a verdade da nossa experiência. Da mesma maneira que o fogo é quente e a água molhada, a impermanência é apenas o que é; ela não é boa nem má. Aceitá-la cura o pensamento mágico de que podemos protelar o processo inexorável da mudança, e nos dá uma capacidade maior de aceitação e mais alegria. 

Chagdud Tulku Rinpoche 
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Um comentário:

VitorNani disse...

Olá, Patrícia!
Muito pertinente este texto, que reflete exatamente o que sempre pensei da vida.
Nada do que achamos que nos pertence é verdadeiro!
Gostei muito de vir até aqui!
Abraços!